8.10.08

Sol

Ela não tinha certeza se o sol estava por sobre ou por baixo de si. Talvez caminhando ao seu lado. O calor era tão intenso quanto a dor de cabeça neurodestrutiva, e ela não podia perceber mais que sua pele gritando por sombra, água, vento. Estava presa, no sol. Sombra, água, vento.

Imaginou em quanto tempo deixaria de resistir ao impulso de deitar-se e deixar-se no chão. Provavelmente até que o cubo espelhado ensolarado amarelo-quente queimasse tanto que não se importaria se uma área maior que a de seus pés estivesse em contato com o vermelho-sangue fervente do chão. Sangue fervente; boa descrição.

Seria aquilo lava correndo em proporções ínfimas ou seu pé finalmente já não tinha pele? Sentia os vasos, esvaindo-se. O sangue, mesmo quente, como líquido, representava um alívio. E ela já estava no chão.

Não foi tão ruim. Sangue era uma boa cama. Só esperava que não demorassem a encontrá-la, porque precisava saber de onde vinha o sol.

KADICHARI M.

criado por kadichari    18:39 — Arquivado em: Crônicas

7.10.08

Uma Curta

- E com pouco o zelador veio para tanger os bois.

- Acabou?

- É.

KADICHARI M.

criado por kadichari    19:18 — Arquivado em: Crônicas

27.9.08

Randomness

É verão em pleno outono? É outono na lua, isso posso lhe garantir. Talvez não possa garantir mais nada. Sofista seria eu se tirasse minhas conclusões de outros lugares senão minha própria cabeça, tem coisas demais nela. Não vai fazer falta. As estrelas correndo em minhas veias permeiam meu ser com o que não quero mais. Não quero porque não tenho como conseguir. Sístole, diástole. Sístole, diástole. Love me, love me not. Love me, love me not. Quero, não quero. Morto. Sem mais sístole, diástole.

O tempo perdido não existe. Não se pode perder o que não existe. Tempo é percepção, as forças influenciando objetos com o intuito de fazer você olhar e pensar: ‘Nossa, estou tão velho’. Eu perdi a percepção uma vez. Dormi e 8 horas sumiram. Ainda estou procurando-as, se alguém achá-las por favor me avisar. Quarta à direita depois dos últimos cacos de homem. Inadequação, fuga à regra, passível de punição simplesmente por não se encaixar. Encaixar-se significa perder o "eu" em benefício do "nós". A terceira pessoa do singular é realmente tão importante? Se importante fosse não seria ela a primeira? Esses jovens de hoje em dia não sabem o que fazem.

As vezes, não ter a mínima idéia é uma coisa boa. No resto das vezes é simplesmente entediante. As vezes o tédio é uma coisa boa. No resto das vezes é só algo sem nome porque "tédio" já havia sido usado. A diferença entre "uma garota" e "a garota" é "um". Um rapaz confuso. Um pensamento pernicioso. Um beijo não dado. Um gole a mais na taça da aleatoriedade. Randomicidade controlada. Disfarce suas intenções com o acaso. Funciona sempre. Com sempre eu quis dizer aleatóriamente. E com aleatóriamente eu quis dizer nunca.

Nunca diga nunca, a não ser que cite essa frase. É obrigatório o uso de "nunca" nesse caso. Você não pode falar "peixe-espada diga peixe-espada". Não soa o mesmo. Sei que fere o livre arbítrio, mas o que se pode fazer quando se está ferido além de ferir o próximo? Ferir o anterior? Ferir-se-ão todos. E tenho dito. Dito e desdito. Desisto. Do que? Ué, disto. Isto dito, gostaria de por favor pedir minha conta. Desacredito. No que? Isto. Maldito.

Nuvens fofas, arco-íris-es, o sorriso dela, patinhos e nuvens fofas. Estou triste. Estou alto. Estou altamente triste. Não tenho medo de altura. Tenho medo de largura. Han Solo atirou primeiro, mas não fez perguntas depois. O mundo quebrou. Não fui eu.

DIMEZITO

criado por kadichari    20:51 — Arquivado em: Crônicas, Excertos

Morte

O chapinhar de milhares de pés em poças no cimento; o ploquetear das gotas de chuva na janela; o tiquetaquear do relógio na mesa ao lado da cama; o tremelicar da imagem na tv; o farfalhar das asas do pássaro na gaiola; o gás a sair da lata do refrigerante.

Gotas na lata, calor. Água na mão. Tédio. Tira os tênis, coloca os tênis. A chuva engrossa. O pássaro pia impaciente, o relógio para. Bate no relógio. O tiquetaquear recomeça. Desliga a tv, liga a tv. Tira os tênis de novo. Bebe o refrigerante e sente falta do gás. Se pergunta quem estaria lá fora andando na chuva. As janelas batem, a chuva engrossa mais.

As janelas se abrem. Água no chão, na cortina, na tv, no pássaro. Fecha a janela. Deita no chão molhado, tira as meias. Levanta, derruba a lata. Desliga a tv molhada. Abre a gaiola do pássaro. Torna a deitar.

Cessa o chapinhar nas poças; cessa o ploquetear da chuva; cessa o tiquetaquear do relógio; cessa o tremelicar da imagem; cessa o farfalhar das asas; não há mas refrigerante na lata.

Olhos fechados. Abertos. Fechados. Como queira.

KADICHARI M.

criado por kadichari    17:50 — Arquivado em: Crônicas

23.9.08

Desculpas

- Como você acha que é morrer? - a voz dela veio fraca, e eu desviei das estrelas celestes para as no rosto dela. Ela olhava para mim, e parecia com medo.

Tornei a virar para o céu e puxei-a para um abraço meio de lado, tentando fazê-la sentir-me ali. Porque eu sabia que ela não estava sentindo. Eu sabia que há algum tempo ela não sentia; e a dor, quem sentia era eu.

- Não tenho idéia. Mas não importa.

- Eu gostaria de saber antes de acontecer.

- Eu gostaria de poder morrer só para te contar.

Num primeiro momento, não percebi que tinha pronunciado tal pensamento. Só quando senti a mão dela subir ao meu pescoço enquanto ela se apoiava no cotovelo para bloquear a minha visão do céu e ser meu foco.

- Desculpa - ela sussurrou. E foi assustador.

De repente vinham à minha mente todas essas imagens com a palavra mais improvável que ela poderia dizer. A palavra que estivera flutuando durante tanto, tanto tempo, mas que aparentemente nunca seria enunciada.

Eu senti as lágrimas dos meus olhos juntando-se às dos olhos dela, à percepção de que não havia nada mais entre nós.

Todos os jogos psicológicos acabaram naquele instante, o instante em que as estrelas da minha estrela encontraram os meus olhos. A vontade de rir foi suprimida por uma enorme decepção.

A decepção de perceber o quão idiota estava sendo. O quanto tive que trabalhar para acabar com tudo aquilo, como um aluninho de sétima série que quer manter a namorada mais velha, mais bonita e mais inteligente que ele. E o quanto ela não dava a mínima.

"Desculpa", porque eu começava a amadurecer. "Desculpa", porque eu pude ver claro o que acontecia.

Não preciso de desculpas.

KADICHARI M.

criado por kadichari    14:15 — Arquivado em: Crônicas

19.9.08

Felicidade

Se alguém lhe perguntasse, ali, no cume da mais alta montanha que ele fora capaz de galgar, ele diria que estava feliz. Ele diria que não, não havia nada melhor ou mais importante que aquele momento. Ele poderia até descrever-se como "no primeiro instante feliz de sua vida".

É claro que ficaria óbvio em seu olhar o brilho apaixonado que o cegava, que o impelia, que o amarrava e o fazia sentir tão seguro.

É claro que alguém faria um comentário sarcástico sobre como "idiota" e "homem apaixonado" eram sinônimos e sobre como ele errava em mostrar tal fraqueza.

E é claro que ele não ligaria.

E por escolha, ele não desceria da montanha. A neve e o vento e todos os contratempos seriam purificadores e serviriam para fazer o momento durar com mais intensidade.

Ele era intenso. Intensa era sua felicidade momentânea, assim como eterno era seu momento.

Assim como eternos são os meus, os nossos. Porque é eterna a felicidade de momentos eternos.

KADICHARI M.

criado por kadichari    17:00 — Arquivado em: Crônicas, Reflexões

16.9.08

Enchente 2

Eu não conseguia nem me lembrar há quanto tempo não ria daquele jeito. Não podia; era enfraquecedor.

Um dia ao lado de tal alma era o suficiente para me bem-humorar. Por sobre todas as palavras não-ditas, as lágrimas não-vistas, os gritos não-ouvidos e principalmente por sobre a cinta que aperta forte meu coração durante todo o resto do tempo. Eu conseguia ficar bem.

E veja bem, eu não ficava bem como fico sempre, aquele bem em que pouco bem se torna bem demais pela escassez de bens na minha vida. Era bem de verdade. Bem de sorrir sem uma interjeição para isso. Bem de falar besteira. Bem de rir das besteiras faladas. Bem tipo bêbada.

Sim, ah, eu tenho minha vodca particular e inesgotável. Minha bebedeira sem danos ao fígado.

Porque ela sempre volta.

KADICHARI M.

criado por kadichari    22:00 — Arquivado em: Crônicas

13.9.08

Enchente

Eu provavelmente me arrependeria. Eu disse provavelmente? Ok, certamente.

Nunca houve um ponto favorável em trazê-la de volta pra minha vida. Nunca veio disso algo de bom. Mas não posso evitar; não podia. Até aprender que devemos resistir a coisas momentaneamente boas mas que ferram com toda a sua vida, ah, até aprender. Foram-se acho que umas quatro vidas. Entre as abstinências dela, entre as presenças dela. Ambas igualmente invasivas, como uma enchente que carrega todos os seus móveis.

Sim, todos os meus móveis. Só me resta a pequena almofada molhada que eu segurava; todo o resto foi embora. Minha almofada pulsando, irreparável agora. Porque agora eu sei que a abstinência é completa e vai durar por um tempo relativamente longo.

Não vou trazê-la de volta. Ela é o cigarro de maconha que eu nunca consegui provar sem tossir. Ela é a cocaína da overdose de risadas que eu imagino ter provocado.

Não vou trazê-la de volta. Minha almofada vermelha e molhada continua a espera, mas ela é a única coisa que sobrou da enchente e não vai jogar-se em tal precípicio. Mesmo rasgada e molhada ela continua inteira, e pretendo manter-me assim por algum tempo.

Não vou trazê-la de volta.

Por favor, volta sozinha!

KADICHARI M.

criado por kadichari    10:00 — Arquivado em: Crônicas

12.9.08

Rotina

Acho que minha felicidade mais plena eram aqueles dias em que andava pelas ruas à hora do jantar. Saindo da rotina por alguns minutos, só para sentir que nada perdia quando não tinha coragem de mudá-la.

Só aqueles fragmentos de conversas, talheres chocando nos pratos e os cheiros das massas ou do bom feijão, só aquilo era capaz de me entorpecer. Tem jeito de entender uma realidade tão longe da sua? Eu sentia as vozes altas baterem disritmadas ao meu coração, e sabia que aquilo não era pra mim.

Ah, pena. Pena daqueles que necessitavam de tanto calor. Eu lembro bem daquela família: pelo menos dez pessoas amontoadas em torno de mesas de plástico bamboleando com pesadas travessas, cheias de uma comida qualquer, e o cheiro se misturava às vozes e chegava a mim como rosbife falante, ambulante, que me acompanhou por toda a noite e me acompanha ainda.

Que diabo de rotina é essa? Que diabo de rotina exige tanto esforço, tanta tolerância?

Por que eu me submeteria a tal prova de paciência?

Qual é a grande vantagem de incluir-se em tais rituais hipócritas capitalistas sedentários nojentos cheios de baba e dentaduras?

E eu voltava à minha rotina. Sempre, sempre. Não sentia falta. Não senti falta. Nunca.

Não se sente falta do que não se tem.

Principalmente quando o gramado é mais verde do lado de cá.

KADICHARI M.

criado por kadichari    22:41 — Arquivado em: Crônicas

10.9.08

Tears

- Oh, my gosh! - she joined her hands together on her foreahead, the way I know meant exasperation - You -are -such -a talker! Just stop for a second, and listen! And I don’t mean "listen to me", I mean, listen to yourself!

I didn’t answer, but that’s basic. I know I talk too much, but she always managed to control me by making me feel useless and humiliated. Well, I wouldn’t possibly be able to talk less when I was that nervous. Nervous about losing her.

What had happened again? I guess I forgot above all the talking.

- Just pay attention to how silly and stupid you’re being - and more humiliation. Maybe I deserved it, I don’t remember anything I said either.

- Maybe you should pay attention to how hard and bumming you get to be sometimes - oh, yeah, something like that. Just then I realized there were tears in her blue eyes. My blue eyes, full of tears! _ Listen, I’m sorry, I… I indeed am such a talker!

- Yeah - that’s all she could say, and, next thing I know, she was bursting into tears. Worse, she fended my hands off of her face - Just let them be.

 I guessed she was talking about the tears I was supposed to wipe.

- No, I have to wipe them, I can’t see you like this.

- Maybe you can. Maybe they’re yours this time. Don’t touch me. Just don’t - the whole sentence was interrupted by hiccups, except the "Just don’t" (even though it actually sounded like one), what showed me she really meant it. "Just don’t", like, never again.

I nodded. What else could I do? Got up, kissed her on the top of her head and went away.

Oh, well.

KADICHARI M.

criado por kadichari    16:01 — Arquivado em: Crônicas

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