30.8.09

Esqueçamo-nos das Vírgulas

A orquestra tocava enquanto quisessem que ela tocasse, e tocaria adiante pela noite se pedissem uma musica especial que durasse a primavera para os casais apaixonados que precisavam da privacidade que só um baile como aquele, formoso em suas decorações, poderia proporcionar, espalhando semblantes felizes pela relva balançada pelo vento e vultos apenas que corriam de mão dadas para o lugar mais escondido esperando que já não houvesse ninguém ali.

Bum, bam, bum, e o sonho continuava, mas o raio de sol intruso vinha sem dó nos últimos minutos da felicidade, e ai de quem não tivesse aproveitado, porque daí então só no próximo baile, quando a próxima orquestra que aceitasse tocar sozinha em si mesma pudesse atender os pedidos dos que queriam que aquilo se estendesse por toda a noite e mais, que a noite se estendesse por tudo aquilo.

KADICHARI M.

criado por kadichari    22:29 — Arquivado em: Crônicas, Excertos

19.4.09

Resignação

A estrada é longa; o asfalto quente pode fritar ovos, ferver água, dissecar você. Mas você não tem ovos nem água.

KADICHARI M.

criado por kadichari    0:36 — Arquivado em: Crônicas

18.3.09

Assurance

How do you make sure you’re here? I know, "I think, therefore I am". But how can I make sure that my thinking ain’t just somebody else’s conscience being written; somebody else’s thought; just a character in a book two thousand years from now (that’s my now I’m talking about, my illusion of presence).

People are just so deluded about everything, why not about this?

Why don’t anyone doubt their own existence?

I really wish that I’m somebody else writing a book. At least I’d know something grand will happen till the end.

KADICHARI M.

 

criado por kadichari    0:09 — Arquivado em: Crônicas

11.3.09

Inquietações

Era longa a série de mal-entendidos que nos seguia e unia - isso nem vem ao caso - porque havia uma séria incompreensão nos abrangendo. Ela não podia entender e eu ficava rouca de explicar; acabávamos por aceitar uma a outra como os seres mais ignorantes do mundo e seguíamos em frente.

Houve, então, o mal-entendido que acontecera de verdade.

Primeiro note que ela sempre fora inquieta. Era de sua natureza, de sua pele, de seus olhos, mesmo quando sentada, mexerem-se, erguerem-se, desconcentrarem-se. Havia uma certa agonia no modo como viajava o olhar da boca pra as mãos do interlocutor e então para os seus próprios pés balançantes quando o discurso começava a alongar-se; hiperatividade ou déficit de atenção, não sei. Posto isso, sigamos.

Houve que algo aconteceu. E eu que havia de dizer que não foi nada significante, ou até que não foi, apenas, disse. Grandes estrondos e escândalos não são mais ridículos que a não-justificativa de quem diz que não fez o que fez. Nem são tão inesperadas as conseqüências.

O que ela viu ou ouviu, exatamente, eu não sei dizer, já que o que ela falou após foram poucas palavras - desanimadas até. A grande impaciência dela me impediu de explicar - até mesmo se ela tivesse uma grande paciência me seria difícil.

Creio que houve um entrechoque de idéias tão grande naquele cérebro de menina que a inquietação imperativa dela se tornou introspectiva, e até sua voz parecia ser engolida e não proferida - ainda que não tenha me esforçado um mínimo pra ouvir todas as palavras bem diccionadas: "você e eu somos uma piada. Nós somos uma piada". Só não tenho certeza se o "haha" que se seguiu foi dela ou da minha imaginação.

Não importa. Foi o que bastou pra nos provar o quão ridículas éramos. Não havia, nem haveria, chance para toda a nossa falta de comunicação numa relação adulta; e já deixáramos de ser crianças.

Fomos em caminhos separados, mas de perto. Eu podia vê-la e ela a mim, ambas as duas ansiando por um novo cruzamento.

Quando lá chegamos e sentamo-nos juntas outra vez, pude perceber a calma que ela apresentava. A eloqüência, a coerência, a atenção expressiva nos olhos castanhos meio puxados. E, num momento de silêncio, tive o prazer esquisito de ouvi-la comentar sobre a minha inquietação aparente.

Eu ri um tanto, e ela apenas me observou com olhos sorridentes. Compreensão mútua. Acho que foi aí que ficamos.

KADICHARI M.

criado por kadichari    21:59 — Arquivado em: Crônicas, Reflexões

12.2.09

Lixo

Por algum tempo o gravetinho se movimentou para a direita e para a esquerda, a esmo, enquanto ela sentava meio sem rumo na calçada. A poeira fina e negra na qual ela desenhava riscos caprichados aderia à sua pele, e aos poucos os dedos e quase toda a palma estavam acinzentados e incomodamente grossos.

A ironia não era um de seus elementos preferidos. Havia a espera, o trabalho árduo, o resultado, e a ironia. A ironia era que nada seria recompensado. Planos subitamente arrancados do chão ainda na forma de sementes, puta raiva sendo plantada no lugar. Ela esticou as pernas para a rua de modo a conseguir deitar na calçada quente.

E se o caminhão recolhedor do lixo passasse por cima dela naquele momento? Não seria irônico? Não era irônico que ela dentre todos tinha permanecido de pé e seguido, quando ela dentre todos não tinha se esforçado para isso? Não era irônico que haviam árvores de puta raiva crescendo mais frondosas que o freixo de resultados dela?

O julgamento era mais duro que sua própria vontade de crescer; ela diminuía, diminuía, até que não pudessem mais vê-la, como nos desenhos animados estúpidos e enganosos. Enganosa.

Bem queria que tudo acabasse. Acabasse, acabasse.

ESTRONDO.

O caminhão recolhedor de lixo passou, e agora sim ela estava bem.

KADICHARI M.

 

criado por kadichari    19:34 — Arquivado em: Crônicas

24.1.09

Ilusão

Às vezes ela achava que estava sozinha. Não estava, mas era tão forte a sensação que ela se enraivecia com todos à sua volta por não lhe darem companhia quente o suficiente. Eram odiosos todos aqueles que se preocupavam tanto com seus próprios narizes que não podiam ver o dela. Não viam o dela! Crime imperdoável.

Às vezes ela ouvia as pessoas chamando-na arrogante. Então pensava em tudo o que eles faziam contra ela, todas as palavras duras que tinha que ouvir só porque ninguém a compreendia. Sentia pena daqueles que espalhavam coisas terríveis sobre ela só para esconder sua mesquinharia e falta de tato, só para tentar perdoar as suas faltas para com ela.

Às vezes parecia que ninguém gostava dela. Não riam das suas piadas, porque ela era a piada. Ela só podia pensar que eles se reuniam depois para listar todas as gafes que ela cometia. Afinal ela tinha um filtro muito bom para piadas de mau-gosto, e a única explicação para não rirem é que não gostavam dela. Ela era uma aberração, uma pessoa boa entre tantos leitões.

Às vezes ela sentia vontade de se machucar. As pessoas criticavam sua felicidade, achavam que ela devia ligar para os problemas dos outros, ajudá-los, mas ora; ajudar àqueles tantos que só a desprezavam e nunca pensavam no bem dela? E o bem dela? Ela precisava de vários bens diferentes. Não poria ninguém no caminho disso, ninguém merecia. Ela era definitivamente unstoppable, precisava de um pouco de realidade.

Mesmo que não soubesse exatamente o nome do que precisava.

Houve uma vez em que alguém olhou nos olhos dela. E ela reconheceu imediatamente a arrogância no olhar dele; era a mesma que encarava em seus próprios olhos no espelho, sob outro nome. Então ela se apaixonou.

Ele era tudo que ela desprezava; ainda sim ele era tudo o que havia nela. A simples complexidade do que ela não entendia tomou forma real, e então ela pôde tocar, cheirar, soletrar a realidade. Era o suficiente.

Às vezes ela pensa em como ainda está apaixonada, e em como a realidade desprezou-a tão mais forte que qualquer outra pessoa.

KADICHARI M.

 

criado por kadichari    23:15 — Arquivado em: Crônicas

12.1.09

Vazios

Houve um estalo alto, e então uma poeira leve, cinzenta e incrivelmente volumosa tomou o cômodo para si. Ele fechou os olhos um segundo mais tarde do que deveria, e sentiu lágrimas misturarem-se com a agitação da poeira em frente à sua tosse. Abanou as mãos, a tosse se tornando um quase vômito poeirento, tentando abrir um raio mínimo em torno de sua cabeça para olhar para cima.

Certo. Primeiro tinha de se levantar. De onde vinha tanta poeira? Sentou-se e tentou abrir um pouco os olhos, só uma pequena fenda: a massa cinza pareceu sentir e comprimiu com força seu rosto, penetrando suas narinas já secas e bloqueando sua traquéia. De onde vinha tanta poeira? Se levantou de vez, e sentiu meio que um redemoinho em torno de si, apesar de não ousar abrir os olhos novamente. Tateou procurando as paredes, mas a poeira não o deixaria.

Tossiu.

Que espécie de armadilha mortal era aquela?

Ele levou as mãos à cabeça em desespero. Então riu.

O buraco vazio no topo de seu crânio lhe explicou de onde vinha toda a poeira. Ele deitou-se novamente e desejou que ela voltasse à forma cerebral antes de retomar seu lugar.

KADICHARI M.

criado por kadichari    21:28 — Arquivado em: Crônicas

8.12.08

Nada

- E agora?

- Agora nada.

Ambas concordamos. De tudo, nada. Da história, da convivência, da felicidade momentânea, os gritos e os abraças, de tudo, nada mais restava. Nem os rastros, porque eles foram apagados, enterrados, assim que deixados. Escolha nossa, enfim.

Agora nada. No nada jaz meu amanhã.

KADICHARI M.

criado por kadichari    21:30 — Arquivado em: Crônicas

25.11.08

Hipocrisias

- O que importa é o que você é, não o que você tem! - a frase retumbou, reverberou, silenciou. Não sei se ele ouviu minha risada abafada; nem me importa. Hipocrisia daquele pseudo-professor narcisista que queria ganhar em dólar, comprar um carro novo, mudar de cidade e nunca mais ver seus aluninhos pseudo-queridos.

Não estava ali de verdade. Era uma casca infeliz, covarde, era uma representação de si mesmo no que deveria ser, ter, falar. Nunca soube se sentia pena ou vontade de rir, rir imensamente daquele homem que jogava sua superioridade sobre nós, só para sentir-se melhor sobre o fato de que não era mais adolescente e feliz com nossa inferioridade.

Gritava e se empolgava ao falar do vazio da vida, da importância da felicidade, sonhava acordado enquanto dormíamos. Apenas as aulas que ele tentava dar a si mesmo e que não nos envolviam eram interessantes.

Acho que ele odiava a própria vida. Limitava-se suas letras às suas pornografias, suas palavras à vida de alguém, sua felicidade a momentâneos lapsos de verdade.

Fingia a vida e pretendia fingir a morte, talvez fugir para seu amor dos dezessete anos, fugir da hipocrisia da vida vazia, vida feia, que vivia.

Não é nada reconfortante, nada aliviante, porque ainda estou eu nos meus dezessete anos. Evoluir, evoluir, evoluir.

KADICHARI M.

criado por kadichari    12:16 — Arquivado em: Crônicas

13.10.08

Engrenagens

Ô, menininha temperamental.

Deixa eu te mostrar como as engrenagens giram.

Deixa eu te provar que elas giram.

Deixa eu te provar…

KADICHARI M.

criado por kadichari    19:02 — Arquivado em: Críticas, Crônicas

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