24.8.08

Crônicas de Nárnia (Vol. IV)

Chato.

Pra todos os que saíram do cinema, depois de assistir a Príncipe Caspian, pensando "que merda de filminho adolescente! Por que eles não fizeram como o primeiro? Que horror! Odiei!", ou afins, chegaremos lá.

Primeiro, o livro. Chato! Toda a idéia dos Telmarinos é bem difusa; continuo sem saber de onde e pra onde eles vão. Afinal, se Caspian tem direito ao trono de Nárnia, ele é narniano, descendente do Rei Franco, o primeiro, lá de O Sobrinho do Mago (acho que nem falei dele, por sinal). Eu tenho duas teorias: "telmarino" é como eles chamam os filhos de Adão e Eva por lá (huahua, tosco).

Ou, toda essa história de Teimar (é o nome do reino) surgiu como uma "rebelião" de Nárnia, uma pequena divisão que começou com um rei intolerante aos animais falantes, e que desenvolveu-se com o assassinato desses animais, e com o afastamento dos homens da floresta, com medo da fúria de Aslam (todos os reis prometem a Aslam que vão tratar dos animais falantes como iguais quando assumem o trono). Isso, claro, é suposição minha, porque Lewis não faz questão nenhuma de nos deixar isso claro.

Assumirei que a segunda opção está correta. Sigamos.

Caspian, pobre menino, teve seu pai morto por Miraz; seus Lordes protetores afastados por Miraz; sua ama narniana que lhe contava as histórias da antiga Nárnia afastada por Miraz; e quase foi morto por Miraz, quando este teve o próprio filho. Só nesse parágrafo, conte umas boas noventa páginas (em comparação - nunca façam isso, nunca façam isso! - a Harry Potter, Principe Caspian seria como a Ordem da Fênix: puta enrolação).

Caspian, então, foge. Para a floresta, onde ele sabe que os homens de Miraz não tem coragem de entrar. Ele toca a trompa da rainha Susana, anteriormente presenteada a ele pelo tutor que substituiu a ama narniana; e segue reunindo-se com os animais, tentando convencê-los a lutar do seu lado, contra Miraz, para que eles possam "retomar" Teimar e reinar numa Nárnia feliz novamente. Enquanto isso, Miraz reúne exércitos para atacar pelo outro lado, derrubar de vez aquela "floresta maldita".

Ponha aí mais cem páginas. Quando os quatro reis retornam a Nárnia, Lúcia vê Aslam, mas ninguém acredita nela (por que sempre ela é desacreditada? Eles não lêem as próprias crônicas? Ninguém sabe que Lúcia é a toda-verdadeira que NUNCA mente?), e eles acabam se perdendo pela Floresta enquanto a batalha esquenta do lado de Caspian. Muitos narnianos morrem, e telmarinos também, mesmo que nem ao menos se comparem essas às baixas de Nárnia.

Quando percebem que têm de voltar, todos eles "encontram Aslam". Envergonhados, tornam a seguir seu caminho, o caminho certo, agora, e salvam a pátria, com Aslam clamando por árvores lutadoras no caminho.

Mais cem páginas. Parabéns, você conseguiu terminar o Príncipe Caspian!

De novo comparando (não façam isso, não façam isso!), é como ir ver a Ordem da Fênix depois de ler o livro. Esperança! Existem roteiristas e diretores com bom senso, e que sabem onde inventar, e onde cortar, e como transformar todas as ladainhas escritas em boa fotografia (por favor, alguém tira o Kloves de HP!!). O filme não é dos melhores, mas, ah, ele com certeza melhora e muito o livro.

Livro, por sinal, meio sem significado. Conhecemos Caspian, certo, ele está lá nas próximas duas crônicas, mas… Não, não é um bom livro. É inclusive o culpado por eu ter dado uma pausa de quase dois meses na leitura dos volumes (vai continuar nesse ritmo? Ah, nem!).

Felizmente, Príncipe Caspian é uma excessão. Prometo trazer algo melhor para os próximos.

KADICHARI M.

criado por kadichari    15:50 — Arquivado em: Críticas

19.8.08

A Hora de Clarice

Não posso falar da obra de Lispector; só li frases soltas e o obrigatório "A Hora da Estrela", mas, putz: foda.

Não há uma história; a introspetividade é o charme. A introspectividade, as palavras de Clarice - ou de Rodrigo M. S, não se sabe. A impressão (e aqui eu uso "impressão" porque sabe-se lá se não foi proposital) é que ela escreve o livro à medida que ele lhe brota nas mãos. Esse foi, aliás, o motivo pelo qual iniciamente achei que não ia gostar do livro: ela se estende em palavras ao léu, afirmando ela mesma (ou ele mesmo) que sofre para colocar a nordestina do papel.

Depois das primeiras vinte páginas, porém, o livro corre. E corre como um rio, nos levando pela correnteza. Ao mesmo tempo excitada pela velocidade, e envolvida pelo molhar das águas, o desejo é virar-se e nadar contra a correnteza, tentando beber cada gotinha possível do estilo de Clarice.

Sim, estilo, é a palavra para esse livro. Estilo, foi o que me fez terminá-lo em uma hora e meia. Não a história, até porque, diga-se de passagem, isso quase não há; foi a forma que ela (ele) escolheu contá-la.

Descrever Macabéa por dentro, e escrever o mundo aos seus olhos, deixa ainda mais chocante os poucos acontecimentos. O descaso que ela toma por felicidade, a "cultura" que ela bebe do gota-a-gota dos minutos. Macabéa é apaixonante, quando sozinha em casa rodopiando fronte ao espelho. Macabéa é inocente, acreditando cegamente em em Olímpico, em Glória, em sua tia, na Madame Carlota. Em Hans. Na humanidade.

E dói dizer; Macabéa é tão burra! Burra, burra! Como pode alguém crer tão cegamente em tudo, em todos; viver completamente ao acaso, acreditando ser a vida o motivo de sua felicidade? Como pode alguém ser tão inocente, tão simples, tão modesta, tão insignificante até para si mesma? A pobre datilógrafa tem de ser uma santa, porque isso é burrice para qualquer outro ser humano.

Só fiquei com o pé atrás com o fato de ela ser nordestina. Parece que a Clarice se vestiu de Rodrigo M. S. para exprimir preconceitos execráveis. Mas, isso pode ser mais paranóia minha, mesmo.

Macabéa conquista, apaixona. Apesar de ser doloroso demais ler o último parágrafo, sabendo que esse foi o último livro de Clarice, recomendo. E leia mais de uma vez.

KADICHARI M.

criado por kadichari    19:45 — Arquivado em: Críticas

16.8.08

Crônicas de Nárnia (Vol. III)

Bom! (Pasme!)

Faz tempo, né? Li esse volume acho que antes das férias começarem, então perdoem-me por qualquer equívoco em relação a nomes e lugares.

Acho que é, dos sete, o que eu mais gosto. Sinceramente? O único que tem história. Não sei se isso tem algo a ver com o fato de que não se encontra nenhum Pevensie, nem nenhum outro filho de Adão ou Eva vindo do Mundo Estranho (o único em que isso acontece, na verdade; destoa dos outros em tudo); não sei se tem a ver com o fato de que é nele que conhecemos, realmente, o mundo onde Nárnia está.

Sim, pessoas, Nárnia não é um mundo. É um país. Circundado pela Arquelândia, a Calormânia, as ilhas solitárias, e além. É um país governado por Deus, digo, Aslam. E que vive em paz com os outros países, apesar de a Calormânia, governada em nome do Demônio Tash, insistir em importunar os lourinhos narnianos (tadinhos, gente!).

É nesse livro que fica claro que Lewis era um preconseituoso-mor, sim. Não é a questão dos conceitos religiosos turvos que aparecem nos livros, e isso é até interessante, diga-se de passagem (quem disse que eu não curto analogias e pregações? Admito que Lewis tinha um talento para catequizar crianças); preconceitos mesmo, daqueles que hoje são abomináveis (sim, porque ainda existem preconceitos sob apologias).

Exemplo? Fácil. O povo do sul, da Calormânia, adoradores de Tash (sim, ele usa esse termo, viagem, né? Não era melhor dizer adoradores do diabo, logo, pecadores, pessoas sem rumo e que vão para o inferno?), é um povo mau, corrupto, aproveitador, nojento, que tem habilidades (todos os tipos: em forje, em luta, em educação, em "angariar recursos e alianças") inferiores às dos narnianos, e às dos arquelândios também (a Arquelândia é pra Nárnia como o Canadá é para o Estados Unidos). Esse mesmo povo, é, hã… NEGRO!

Sim, sim, "suas caronas escuras e feias", "suas barbas espessas e sujas", "sua pele escura e grosseira, como eles". Negros.

Agora, adivinhem. Como são os narnianos e arquelândios? Lourinhos. Branquinhos. De olhos azuis como as águas ou verdes como as algas.

E a história é, basicamente, assim: um príncipe arquelândio (não lembro o nome dele) é seqüestrado e vai parar na Calormânia, e é criado por um pescador. Mas ele é louro, branco, de olhos azuis, fica óbvio para todos que ele NÃO é filho do tal pescador. Para todos, menos para ele, é claro. E quando o principezinho descobre, ah, é claro que ele foge. Para Nárnia e além!

Ele rouba um cavalo calormano - ou melhor, o cavalo de um calormano, porque descobre-se depois que aquele era um cavalo falante de Nárnia. Um cavalo falante de Nárnia que o ensina a montar e o ajuda a chegar ao seu destino.

No meio do caminho, eles conhecem a filha de um Tashbã (tipo de Lorde calormano), que foge com sua égua, rumo a Nárnia, para fugir de um casamento arranjado. A égua dela, claro, também é narniana.

E eles seguem juntos, entre guerras e leões. Aliás, não entre leões, mas com o Leão. Aslam, claro. Saudades dele?

Bem, essa é minha crônica preferida porque é também, de certa forma, a mais verdadeira e, religiosamente falando, é também a crônica que faz para mim maior sentido. Aslam traz nela respeito, e ensina lições dignas; até mesmo a noção de punição é suavizada, como eu acho que deve ser (principalmente por ser um enredo infantil).

A idéia de Deus, de regras, de bondade e maldade, de predestinação; convence. É um livro doutrinante, sim, e é também apaixonante. Dentre todas as crônicas, é, sim, a melhor. Aconselho também "A Cadeira de Prata" (falaremos dela adiante), mas não é nem de perto tão boa quanto esta.

Crônicas de Nárnia, Volume III, O Menino e seu Cavalo: um filme de Marcelo Rossi bastante melhorado.

KADICHARI M.

criado por kadichari    12:09 — Arquivado em: Críticas

10.8.08

Séries

Naruto; Death Note; Harry Potter; Os Simpsons; Eu, A Patroa e As Crianças; Friends; Heroes. Dá pra encontrar um padrão nas minhas séries favoritas? Porque eu já vi gente falando tão mal de todas elas (certo, eu ainda aceito reclamações de Heroes, com toda a questão "de quantos mais super-heróis nós precisamos?"), e gente tão diferente, que às vezes gostava de uma e não da outra; e, para mim, é tudo a mesma coisa (salveguarde os detalhes, pelamor!).

Tudo bem, misturei desenhos com animes com live action, vamos por partes.

Naruto e Death Note. Animes, tá, mangás, certo. Histórias com-ple-ta-men-te diferentes, you might say. Bem: são histórias que trabalham valores (supertrabalham, IMO); trazem protagonistas super determinados (de maneiras morbidamente diferentes, o.O); trazem amiguinhos do mal (tá, eu não resisti a comparar o Sasuke com o Ryuuk… E não diga que não tem nada a ver, ambos são fofamente desalinhados, mas de certa forma, não são maus - mesmo que eu ainda prefira o Ryuuk)… As tramas são muito inteligentes, muito mais originais que qualquer "A Favorita" por aí, e que realmente tocam, tocam fundo na personalidade humana. Mesmo.

Os Simpsons… Não tem nem o que dizer, né? Manifeste-se a criatura que não (pelo menos) admira o Bart, ou a Maggie, ou o Homer, ou as outras duas lá (hein?). Porque é uma puta forma de dizer: "SE LIGA NO QUE A SUA GERAÇÃO ESTÁ SE TRANSFORMANDO! NINGUÉM NEM GOSTA DA LISA!". Os Simpsons, é Os Simpsons, gente. Os Simpsons!

No nível de Os Simpsons, só que a live action e numa versão negra, está Eu, a Patroa, e as Crianças. Porque se aquilo não te dá nenhuma lição (é porque você já está imbecil demais XD) pelo menos você ri pra caramba. E rir, rir é algo que a gente precisa.

E por isso mesmo: Friends! Só porque eles se completam, e porque ninguém aguentaria ser amigo de nenhum deles - todos com suas específicas extravagâncias e falhas (e eu ainda digo que a Janice é a reunião da personalidade dos seis). Não sei o que dizer de Friends. Não é um humor inteligente, ou cético, ou, sei lá, negro. É um humor imbecil. Que nos deixa gargalhando imbecilmente fronte à TV (nessa linha ainda poderia citar Seinfeld, The New Adventures of Old Christine, etc., mas fecha em Friends, mesmo).

E tem Heroes. Heroes tem um quê de novela das oito, com todas as tramas, e subtramas, e cabos, e ligações e telas verdes. Tem um quê de X-men, mas de certa maneira… É melhor - não desmerecendo X-men, ou a Liga da Justiça, ou qualquer outra coisa. Mas qualquer pessoa - sensata e não fanática - que assista Heroes, e Smallville, e todas essas explosões de super-heróis, pode dizer que eles consertaram várias coisas (e erraram em várias, mas trouxeram o Sylar cute-cute, então tô nem aí  ).

Esqueci de alguma? (looking around) Ah, sim. Claro!

Harry Potter. Falem o que quiser da Tia Jo (ou do Daniel, ele é enrustido). Ela tem um dom. Um dom que muitos adorariam ter. O que ela construiu ao longo dos sete volumes é inexplicável, e pra quem acompanhou do início ao fim, é fácil ignorar qualquer crítica à maturidade da obra. Harry Potter é a obra "infantil" mais bem construída, mais inteligente, que eu já li (achou que eu ia dizer "que já foi escrita"? Não estou cega a esse ponto). Mesmo que a autora sofra da síndrome de Robinson Crusoé, mesmo que ela tenha feito uma merda no quinto livro, mesmo que tenham queimado todas as palavras dela nos filmes, cara… Não é só sobre magia, genialidade, sobrenaturalidade, ou qualquer coisa que você atribua. Nem é sobre amor. Sabe, eu conseguiria facilmente traçar uma linha da obra da Tia Jo até Dogville, por exemplo. É uma grande parábola (só eu tenho preconceito com esse termo) sobre a humanidade, em todos os aspectos. Uma super parábola - para quem conseguiu ligar "parábola" a "Paulo Coelho" (não devem ter sido muitos), nem me permitam começar a falar desse "mago" aí.

Valeu.

(Isso tudo porque eu terminei de ver a segunda temporada de Heroes)

KADICHARI M.

criado por kadichari    18:38 — Arquivado em: Críticas

29.7.08

Je Ne Regrette Rien

Eu sentei pra assistir Piaf sem ter a mínima - a mínima mesmo - idéia do que estava prestes a __________ (aqui você pode escolher entre ver, ouvir, sentir, presenciar, viver).

Até você entender a linha da história (o que nem propriamente acontece), o filme joga com todas as suas sensações. É chocante, é maravilhoso, é muito, muito bem feito.

Edith Piaf, uau! Não, não sabia quem era (diga o que quiser). E, hã, já sou fã. Toda a trajetória. Toda a rabujice. A velhice precoce, a morte - sublime. Sublime!

Não sei o que falar. A trilha sonora, a ambientação, os fatos jogados ao esmo. As peças secundárias se movendo e lá vai Piaf, sua saúde frágil e sua voz retumbante, desmaiando em palcos e fascinando até aos americanos.

Não, não se arrepende de nada.

E você com certeza não vai se arrepender de ver o filme.

KADICHARI M.

p.s.: o blog fez uma ano dia 07/06 e eu só me toquei agora ¬¬

criado por kadichari    19:46 — Arquivado em: Críticas

1.7.08

As Crônicas de Nárnia (Vol. II)

Existe uma máxima entre os cinéfilos-leitores de plantão, que diz mais ou menos isso: "Um filme nunca é tão bom quanto poderia ser, se você tiver lido antes o livro correspondente". Sim, sim. Virão comparações, e, no final, aquele inevitáveis "ah, mas eles não incluíram minha parte preferida!". Assistir ao filme sem ler o livro é, basicamente, uma oportunidade de curtir a película sem interferências e, quando finalmente ler o dito cujo, perceber que todos os pequenos cortes ainda permitem que tudo faça sentido.

Claro, já encontrei alguns filmes que me satisfizeram mesmo que o primeiro contato tenha sido o livro - Orgulho e Preconceito, por exemplo. Pois bem, O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa é uma dessas excessões.  E uma excessão bem particular.

Essa Crônica começa com uma explicação pequena e fácil - como todo o resto - sobre por que os Pevensie estão na casa do Professor Kirke (que é o pequeno Digory do primeiro livro). Palavras curtas e secas, como se não importasse muito. Ponto para o filme, com toda aquela introdução melosa. Aliás, nessa introdução começa já o que é basicamente o melhor aspecto do filme: eles corrigiram lindamente a ignorância de Lewis (e por ignorância, por favor entendam que não o estou chamando burro!).

De uma maneira bizarra (já usei esse termo antes?), C. S. coloca Edmundo como uma pessoa má. Uma pessoa que não teria motivos pra fazer o que fez, que só queria humilhar e ser cruel, que andava no caminho do mal. Edmundo é uma criança. Uma criança, que tem ciúmes da irmã mais nova - Lúcia é, afinal, a mais fofa dos quatro, e reflete, por coincidência, a afilhada do autor -; um menino que é subjugado pelo poder confiado ao irmão, que ele sabe não merecer, pois é Pedro também uma criança; e, principalmente, uma criança que gosta de doces, que está afastada dos pais, que procura um apoio e o tempo todo recebe esporros de seus irmãos. Ele tinha motivos.

O que me parece extremamente forçado é a menção do mau, mau, mau Edmundo. Mesquinho, malvado, gosta de humilhar, mau, imbecil; são todos usados mais de uma vez para descrever o menino. Quando, ao receber o suco da Flor de Fogo de Lúcia, para ser curado, "ele estava de pé, não só curado dos ferimentos, mas com uma aparência bem melhor do que antes. Com uma aparência melhor até do que no tempo em que entrou para a escola e começou a seguir pelo mau caminho. Agora, não. Já podia olhar as pessoas de frente."

Os roteiristas do filme, felizmente, perceberam o quão antiquado seria retratar uma criança de tal modo. E fizeram um trabalho bonito, que compreende não só o que de errado Edmundo faz, mas as atitudes arrogantes de Pedro, o modo como ele gostou do "carinho" da Feiticeira, e tudo o mais já citado acima. (Confesso que Edmundo é uma graça e o meu preferido; principalmente porque já estou cá a uns dois livros d’O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa).

Claro, eles também corrigem coisas básicas como a folha em branco que é Susana (sério, sem opinião e com falas escassas, é só uma seguidora de Pedro - e isso continua até A Última Batalha, porque Susana claramente não era a personagem preferida do autor). E de certa forma, a simplicidade com que tudo se desenvolve e, principalmente, se resolve, é bem mais verossímil nas telonas (onde os acontecimentos devem ser resumidos em duas horas).

Certo, alguns pontos para o filme. Tornemos para o livro, agora: você já viu o filme e pretende ler as Crônicas? Passe direto pelo Volume II. O Príncipe Caspian foi, sim, bastante modificado, talvez traga algumas surpresas (boas ou ruins; surpresas), mas não, não leia o Leão a Feiticeira e o Guarda-Roupa!

Com todo respeito, o livro é um filme (ou O filme). Não traz em si a força das palavras, o impacto que as impressões e opiniões causam, as descrições exatas e felizes da literatura, aquelas que te fazem rir e chorar. As Crônicas são narrativas infantis, e como narrativas infantis, são simplesmente narrativas. Repito, não faz diferença. O livro chega a ser bom. O entretenimento corre rápido, flui e acho que foram os livros que mais rápido li até hoje (três crônicas em dois dias). Mas falta algo. 

Ponto para o livro: os filmes não deixam tão claro a expressão "Santíssima Trindade" incutida em Aslam. É difícil explicar em poucas linhas: ele é onisciente, onipresente e onipotente; ele sabe o que se passa nos corações das crianças; a menção ao nome dele aquece e jubila a todos - menos, é claro, a Edmundo ("ele é mau, mas é irmão", disse Pedro), que sente horror e desespero quando ouve o nome do Leão.  "Pelo Leão", "Em nome do Leão", "Pelas jubas do Leão", "Em nome de Aslam", são básicos no enredo.

Depois de assistir ao filme, é o como se você estivesse simplesmente o revendo, em mais tempo, com os conceitos e preconceitos de Lewis. Enfim:

As Crônicas de Nárnia, Volume II, O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa: Paixão de Cristo.

KADICHARI M.

criado por kadichari    19:11 — Arquivado em: Críticas

29.6.08

As Crónicas de Nárnia (Vol. I)

Raso.

O Volume I, O Sobrinho do Mago, não passa de uma grande (nem tanto, as 68 páginas no adobe passaram em três horas) introdução, que, sim, é completamente desnecessária. Certo, não completamente, é interessante, mas isso só aos que clamam não entender o porquê de os filmes começaram a partir do segundo volume das crônicas.

Primeiro, houve a especulação: estariam eles produzindo as crônicas em ordem de lançamento, não cronológica? Bem, creio que eles apenas descartaram o que poderia resultar num curta-metragem, sem grande ação ou aventura.

O Volume I, é o ano 0 de Nárnia. É quando o primeiro Filho de Adão (o Professor Kirke em cuja casa os Pevensie se hospedam durante a guerra) chega ao grande Nada com sua amiga Polly, um cavalo, um cocheiro, seu tio e, por eventos desencontrados, a Feiticeira Branca e um pedaço de poste. Ao cantarem para passar o tempo, despertam o canto de Aslan, e as coisas começam a surgir. O pedaço de poste que a Feiticeira carregava cai no chão e nasce, um pequeno postezinho! Sim, o Ermo do Lampião!

E o Guarda-Roupa, ah, sim, ele é mágico porque é feito de uma macieira plantada no nosso mundo, mas com sementes narnianas. Virou portal.

Enfim, nada demais. Escrita simples, muito simples, facilmente imagináveis (quando for falar do Volume II, isso vai ficar mais claro). Tudo sai tão fácil, tão magicamente. As alusões à Bíblia, ao Deus Aslam (Por Aslam, o criador; em nome de Aslam; Aslam é a única salvação; a pronúncia do nome de Aslam causa nas crianças uma sensação de Maravilha - a não ser no mau, mau Edmundo! - e, ops, isso já é d’O Leão, A Feiticeira, e O Guarda-Roupa), chegam a ser incômodas, e fica claro, bem claro que a intenção dos livros é recriar os livros sagrados em uma versão infantil.

A simplicidade se estende por tudo, e os valores espalhados pelo livro chegam a ser bizarros no âmbito atual. Lewis escreve "creio eu, no entanto, que Digory não teria de modo algum colhido a maçã para si mesmo. Coisas como NÃO FURTAR eram naquele tempo muito mais entranhadas nas cabeças dos meninos do que hoje", espera, creio eu? Sim, o tempo todo. Coisas como "vamos parar aqui e seguir para onde Tio André estava com os animais"; "penso que"; "creio que", estão presentes o tempo todo e todo o tempo na narrativa. Sim, é uma tentativa de aproximação infantil, que descreve o livro e não sua história.

E a maçã mencionada, de certa forma remete Adão e Eva no Jardim do Éden. Digory não deve comê-la ou usá-la para seu próprio bem, mas a Feiticeira a come; mantém-se jovem para sempre (até Aslam comê-la? Ah, isso é do filme, no livro ele só a mata, mesmo); e é expulsa de Nárnia. Expulsa de Nárnia! Vai para o Norte e começa a se fortalecer. É quando o mal assume (o Grande Inverno, disso falarei depois). Enfim:

Crônicas de Nárnia, Volume I, O Sobrinho do Mago: Gênesis (opa, isso também não é o Volume I de Heroes?)

KADICHARI M.

(sim, dei para fazer críticas agora. ¬¬ . Mas pelo menos por enquanto, vai ser só dos livros de Nárnia mesmo)

p.s.:
          Ordem de Lançamento das Crônicas:

O leão, a feiticeira e o guarda-roupa (1950)
Príncipe Caspian (1951)
A viagem do Peregrino da Alvorada (1952)
A Cadeira de Prata (1953)
O Cavalo e seu menino (1954)
O Sobrinho do Mago (1955)
A última Batalha (1956)

          Ordem Cronológica das Crônicas:

O Sobrinho do Mago (1)
O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa (1000)
O Cavalo e seu Menino (1014)
Príncipe Caspian (2303)
A Viagem do Peregrino da Alvorada (2306)
A Cadeira de Prata (2356)
A Última Batalha (2555)

criado por kadichari    11:32 — Arquivado em: Críticas

5.4.08

Jibóias e elefantes

Estranho como a inspiração pode vir dos lugares mais estranhos. Obviamente, me refiro ao orkut, que me faz vir aqui e digitar mesmo com o dedo roxo com o tamanho dobrado (ser goleira é osso, viu?). Estava lá, olhando um orkut qualquer (nem tão qualquer, mas não importa) e entre as comunidades de rosto da pessoa, encontrei a comunidade da qual também faço parte, a do Pequeno Príncipe. Resolvi dar uma visitada, e encontrei a seguinte questão:

"Tenho um amigo que disse "não gostei do final, porque ele morre". Eu expliquei que um dia ele vai deixar de ver chapéus e vai saber que o Petit num morreu e sim, voltou pra sua rosa. Mas hoje… Eu estava lembrando da pessoa que me deu o livro… Uma amiga que voltou pro planetinha dela.. Fico pensando se essa minha mania de ver jibóias não é só uma fase. Tenho que crescer um dia, seja lá quando for. E hoje.. Agora há uns minutinhos.. Percebi que o pra sempre sempre acaba. E que um dia o Principezinho tem que morrer. Você já se sentiu triste a ponto de pensar que o pequenino estava realmente morto?"

Nunca parei pra pensar se vejo chapéus ou cobras. Na verdade, sempre me preocupei muito mais com o elefante. Por que devemos considerar otimista a visão de quem não vê só o chapéu, se isso significa ver um elefante sendo morto? Cobras abertas e fechadas continuam a ser cobras. E se parecem um chapéu, o pobre elefante ainda está lá dentro.

Deve haver toda uma simbologia nisso, é claro. Mas eu não quero pensar que todo o esforço do petit foi em vão! Ele trouxe luz ao mundo, ele conseguiu arrancar inocência de um coração duro. Ele viu, sim, a cobra e o elefante. E morreu? Pela cobra. Maldita serpente. Pobre petit.

Mas ele virou estrela. Voltou pra sua rosa, sim, voltou. Pra sua terra sem baobás. Eu espero que sim.

Não é otimismo ver a cobra e o elefante, mas é cegueira ver o chapéu. E se você é cego, não vê os baobás. E o petit os via. Os via e os combatia. Sejamos como o petit.

Sem muito nexo, termino aqui. E deixemos petit falar (porque sim, ele voltou pra sua rosa! Mas será que pensar isso não é ver chapéus?).

"- Bom dia, disse a raposa.
- Bom dia, respondeu polidamente o principezinho que se voltou mas não viu nada.
- Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira…
- Quem és tu? perguntou o principezinho. Tu és bem bonita.
- Sou uma raposa, disse a raposa.
- Vem brincar comigo, propôs o princípe, estou tão triste…
- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda.
- Ah! Desculpa, disse o principezinho.
Após uma reflexão, acrescentou:
- O que quer dizer cativar ?
- Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras?
- Procuro amigos, disse. Que quer dizer cativar?
- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa criar laços…
- Criar laços?
- Exatamente, disse a raposa. Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens necessidade de mim. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás pra mim o único no mundo. E eu serei para ti a única no mundo…
Mas a raposa voltou a sua idéia:
- Minha vida é monótona. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei o barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora como música. E depois, olha! Vês, lá longe, o campo de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelo dourados. E então serás maravilhoso quando me tiverdes cativado. O trigo que é dourado fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo…
A raposa então calou-se e considerou muito tempo o príncipe:
- Por favor, cativa-me! disse ela.
- Bem quisera, disse o principe, mas eu não tenho tempo. Tenho amigos a descobrir e mundos a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não tem tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres uma amiga, cativa-me! Os homens esqueceram a verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer.

Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas"

Te cativei?

KADICHARI M.

criado por kadichari    12:33 — Arquivado em: Críticas, Excertos, Reflexões

8.3.08

Vincent

Começo citando Tim Burton e seu adorável Vincent Malloy. Já viram? É genial.

"Vincent Malloy is seven years old / He’s always polite and does what he’s told / For a boy at his age, he’s considerate and nice / But he wants to be just like Vincent Price"

Vincent Malloy é o menino mais doce e obediente da região, ele é respeitador, bem-educado, ele é tudo o que pode haver de bom numa criança. Mas o que ele queria ser, o que ele é, em sua cabecinha, é Vincent Price, o menino que joga sua tia em cera quente para seu museu, que faz experiências com seu cachorro e o faz virar um zumbi, que vive com morcegos e aranhas.

É pensando em Vincent Malloy/Price que eu começo a analisar minha própria cabeça. Porque eu sou aquela que viaja na maionese, que fica se imaginando em histórias e situações contínuas, no futuro, no passado, num universo paralelo (claro, nada tão mórbido como a imaginação dele, né? Aliás, tiaaaas, amo vocês!)

Para Vincent, um menino de sete anos de idade, isso pode não ser sauável, mas e pra mim?

Espero que seja… Porque eu sou fã do Vincent, do Tim e do Johnny (e eles fazem parte dos meus devaneios!) e espero que eles me influenciem sempre…

KADICHARI M.

p.s.: link pra quem se interessar >>> http://www.youtube.com/watch?v=Eb8zw63G9KY <<<

criado por kadichari    15:44 — Arquivado em: Críticas, Excertos, Reflexões, miguxos!

6.3.08

guts

http://asetimaetodas.blogspot.com/2007/05/guts-por-chuck-palahniuk.html

Do criador de Tyler Durden (Clube da Luta). Texto que me impressionou muito e que eu tinha que trazer à tona. Porém, muito impressionante para ser postado diretamente aqui. Aviso aos desavisados: se você não tem estômago forte, não leia. De verdade.

criado por kadichari    20:04 — Arquivado em: Críticas, Excertos

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