11.11.08

Triangle

Ele a via passar por sua poltrona, inerte, quase consciente da inconsciência que tinha dela. O coturno, a maquiagem, a escuridão que ela tentava clamar, passavam por ele neutros, levemente injustificados, incompreendidos. A TV continuava ligada sem interferências, de qualquer maneira.

O resmungo dele à sua passagem a incomodava. Sua rebeldia calada não parecia afetá-lo e ele não percebia a expressão raivosa. Ele não percebia nada. Era apenas um saco de batatas jogado na poltrona, neutro a sua passagem, levemente injustificado, incompreendido. As escadas recebiam suas pisadas duras sem ranger, de qualquer maneira.

A outra entrava na sala e chamava pelos dois. Impossíveis eram aqueles dois nomes na mesma sentença, e ela era sempre duplamente ignorada. O volume da TV aumentava, os passos na escada se apressavam até um bater de portas e ela voltava ao lugar de onde saíra. Uma mera progenitora-servente tentando superar sua neutralidade, levemente injustificada, incompreendida. A panela não saiu da boca do fogão de qualquer maneira.

Três ângulos.

Nenhuma verdade.

KADICHARI M.

criado por kadichari    16:27 — Arquivado em: 100themes

1.11.08

Cut

- Há quanto tempo ele está lá mesmo? - ela estava preocupada, por algum motivo. Ambos sentados na varanda do casarão com suas xícaras de café não-expresso feito por escravos em todo o seu ciclo de produção.

Ele tirou o cinto numa imagem ameaçadora mesmo que ridícula; mas apenas deixou-o cair no chão, aliviando a pressão em sua cintura.

- Pelo menos uma hora - sua voz saiu pastosa, e a mulher percebeu que ele estivera dormindo na cadeira antes da pergunta.

- Você devia estar mais preocupado com ele.

- Porque ele gosta de flores?! - o homem riu escancarado em sua surpresa - Ora, até parece.

- Não havia razão para lhe dar um jardim - ele riu novamente e se levantou.

- Deixa ele, mulher.

Ela apenas suspirou quando ele entrou na casa, e não o seguiu. Mantinha os olhos grudados no filho, bem adiante no vasto jardim que a vista apreciava. Adiante, fronte a um canteiro de tulipas. Seu canteiro de tulipas. Parecia conversar com elas! Ora, uma providência há de ser tomada.

Então no jantar jantavam ambos silenciosamente. Alguém da criadagem contara a ele o que a mulher mandara fazer. Estavam ambos esperando o filho; ela feliz, ele duro.

Não demorou muito e a voz dele foi se avolumando pelo corredor. Ouviram os passos pesados, os gritos com os homens que o tentavam segurar, e por fim um deles sendo derrubado pela força criada para que ele pudesse aparecer na sala de jantar.

Tinha um olhar senil, lunático em sua barba por fazer; roupas sujas de terra, rasgadas. Havia sangue em suas mãos, não-metaforicamente.

- O que houve com elas? O que vocês fizeram com elas? Onde estão elas?

- Filho, por favor - o pai tentou interceder, mas o filho andava de um lado para o outro e não queria ouvir outra coisa que não a resposta de sua pergunta.

- Não! Eu as ouvi gritar, mas não posso mais! Onde as colocaram? O que fizeram com minhas tulipas?

- Eu as mandei cortar - disse a mãe, num ímpeto corajoso e estúpido, imediatamente arrependida pela aproximação do filho. Nunca o tinha visto tão de perto, nem mesmo quando ele nascera. Aquele grande rosto barbado e sujo, os olhos balançando assustadoramente por entre os seus. Era seu filho?

- Assassina! - ele gritou, cuspindo no rosto dela - Assassina! - gritou novamente, e o pescoço dela estava sujo de sangue e terra por sob suas mãos esganadoras - Assassina!

O pai apenas observou. Precisava olhar muito atentamente para pensar no que diria depois. Viu os olhos matadores dele tirarem todo o brilho de vida dos olhos dela, soltou o garfo e deu a ordem.

- Lavem-na e ponham-na na cama. Chamem o médico mais chinfrim que possam encontrar. Ela morreu dormindo.

O filho olhou para ele, o olhar agora calmo e carinhoso.

- Obrigado, pai _ murmurou, enquanto fazia um sinal para que lhe servissem o jantar.

KADICHARI M.

criado por kadichari    14:08 — Arquivado em: 100themes

29.10.08

Dark

- Você poderia ter evitado isso. Poderia, sim. Você nunca pensa no que pode acontecer. Nunca! - ela estava nervosa, tremendo. E eu ainda mais, segurava minha própria testa como para impedir que meus pensamentos viajassem mais que o necessário, mais que o permitido.

Cautela.

Ela suspirou aquele suspiro que dizia que ela queria falar mais mas não sabia o quê. Aquele suspiro que me culpava, aquele suspiro que trazia à tona todos os pensamentos presos. Será que era de propósito?

- Acho que é mais culpa sua que minha. Na verdade, nem acho que eu tenha alguma culpa - eu soltei, numa voz surpreendentemente calma até pra mim. Ela suspirou novamente, mas dessa vez era só falta de argumentos.

- Eu sei - sussurrou, e se eu estivesse numa cadeira teria caído. Tinha sido só uma provocação; não era a resposta esperada - Está escuro. Tenho que ir.

Ficou mais escuro quando ela saiu.

KADICHARI M.

criado por kadichari    13:54 — Arquivado em: 100themes

27.10.08

Love

1. Keep people away.

2. Work hard to be only a piece of the machine.

3. Study manners to cut the affective connections people started when you were born.

4. Let animals get close to you.

5. Be healthy in every way.

6. Don’t treat sex as a big deal. Never ever make love to someone.

7. Don’t let people get close. But practice reproduction.

8. Don’t get close to people.

9. Love your dog.

10. Don’t find out who your mother was. That will only cause trouble if you ever slept with her.

11. Be a good piece to the machine.

12. Slow-workers will be terminated, such as the athletes.

13. Become a doctor in less than ten years.

14. Pay the taxes.

15. Feed your cats. Wild animals must find their own food; but we strongly recommend the slow- workers field.

16. Love everything you have. Have everything you love.

17. DON’T FALL IN LOVE. That’s of extreme importance. People-to-people love is of most forbiddance, punishable by the wild animals in the slow-workers field.

18. Follow the rules. We all make the machine.

p.s. If you’re not mechanized yet, you should look for the Govern Center that is closer to you and update your system.

KADICHARI M.

criado por kadichari    18:54 — Arquivado em: 100themes

22.10.08

Mother

Ela apenas ouvia o carro a deslizar ao lado da calçada; não olhava, não queria.

- Você está sendo irracional - não respondeu. "Venha me falar de irracionalidade" - Eu - não - SABIA!

Apertou o passo, aproveitando a luz vermelha que o impediria de continuar. Ouviu-o xingar e cantar os pneus para estacionar em cima da calçada e continuar a perseguição com os próprios pés.

- Escuta, escuta - a cada tentativa de alcançar os braços dela, a garota andava mais rápido. Quando ambos já estavam correndo e ele finalmente resolveu aproveitar-se de sua capacidade física masculina; ele agarrou-a pelas costas. Sentiu seu tórax tremer enquanto subia e descia e  percebeu que ela chorava - Desculpa. Eu realmente não sabia.

Ela se desvencilhou dos braços dele e continuou a andar. Ele teria continuado a segui-la, mas ouviu um assobio ao longe e percebeu ao virar-se que estavam multando seu carro precariamente na calçada. "Droga", pensou, e parou. Ela se virou, provavelmente percebendo que os passos dele tinham parado.

- Eu te odiaria se fosse qualquer uma. Mas você foi mais longe. Você me fez odiar minha própria mãe.

Ele acenou com a cabeça, sentindo o nó em sua garganta.

- Certo, então - ela voltou-se ao seu caminho e ele tornou-se para negociar sua multa.

KADICHARI M.

criado por kadichari    19:23 — Arquivado em: 100themes

19.10.08

Puzzle

She tried to call them, yell for them, "It’s there! Right over there!", but all her mouth was put deep in the effort to breathe. She was no common girl and that was not exactly a good thing: it’d be much easier to get a cold or a sore throat or something like that.

She chilled over the thought that she might end up dead, silently laid in front of the lake (and that’s a lot literal). She couldn’t really breathe, just enough to keep her arms and legs in that same position with no pain.

They, on the other hand, were really talkative and jokative, looking for it and she knew, she knew where it was! "Right over there!", her mind kept screaming, as she felt her limbs start to colden. Was her skin looking grayish? Was the whole scene a little gray?

"Crap! Where’s my vision?", she thought, desperate now: no longer could she show them the remaining piece’s location. For a last thought, she heard a little ticking noise.

- Found it! Oh, poor girl, missing her nose! - he was laughing, for the record.

- Do you think she’ll die, breathless?

- She’s got her mouth! - she’s no common girl, damn stupid boy. He laughed high pitched laughs. The second one seemed unhappy.

- Just finish her, it’s been three days and it’s driving me insane.

And so did he complete the puzzle. And it was too late.

KADICHARI M.

criado por kadichari    18:08 — Arquivado em: 100themes

17.10.08

See

Abertos. Fechados. Abertos. Fechados.

Acesa. Apagada. Apagada. Acesa.

Queria ângulos. Queria cenas. Queria paisagens de fundo à música. Queria só a chuva sem os trovões.

Queria que o relógio parasse. Queria poder tentar para sempre. Acesa, apagada, acesa. Fechados, abertos.

Quando sua vida é feita de barulhos, tudo o que você quer é ver.

KADICHARI M.

criado por kadichari    22:41 — Arquivado em: 100themes

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