Era longa a série de mal-entendidos que nos seguia e unia - isso nem vem ao caso - porque havia uma séria incompreensão nos abrangendo. Ela não podia entender e eu ficava rouca de explicar; acabávamos por aceitar uma a outra como os seres mais ignorantes do mundo e seguíamos em frente.
Houve, então, o mal-entendido que acontecera de verdade.
Primeiro note que ela sempre fora inquieta. Era de sua natureza, de sua pele, de seus olhos, mesmo quando sentada, mexerem-se, erguerem-se, desconcentrarem-se. Havia uma certa agonia no modo como viajava o olhar da boca pra as mãos do interlocutor e então para os seus próprios pés balançantes quando o discurso começava a alongar-se; hiperatividade ou déficit de atenção, não sei. Posto isso, sigamos.
Houve que algo aconteceu. E eu que havia de dizer que não foi nada significante, ou até que não foi, apenas, disse. Grandes estrondos e escândalos não são mais ridículos que a não-justificativa de quem diz que não fez o que fez. Nem são tão inesperadas as conseqüências.
O que ela viu ou ouviu, exatamente, eu não sei dizer, já que o que ela falou após foram poucas palavras - desanimadas até. A grande impaciência dela me impediu de explicar - até mesmo se ela tivesse uma grande paciência me seria difícil.
Creio que houve um entrechoque de idéias tão grande naquele cérebro de menina que a inquietação imperativa dela se tornou introspectiva, e até sua voz parecia ser engolida e não proferida - ainda que não tenha me esforçado um mínimo pra ouvir todas as palavras bem diccionadas: "você e eu somos uma piada. Nós somos uma piada". Só não tenho certeza se o "haha" que se seguiu foi dela ou da minha imaginação.
Não importa. Foi o que bastou pra nos provar o quão ridículas éramos. Não havia, nem haveria, chance para toda a nossa falta de comunicação numa relação adulta; e já deixáramos de ser crianças.
Fomos em caminhos separados, mas de perto. Eu podia vê-la e ela a mim, ambas as duas ansiando por um novo cruzamento.
Quando lá chegamos e sentamo-nos juntas outra vez, pude perceber a calma que ela apresentava. A eloqüência, a coerência, a atenção expressiva nos olhos castanhos meio puxados. E, num momento de silêncio, tive o prazer esquisito de ouvi-la comentar sobre a minha inquietação aparente.
Eu ri um tanto, e ela apenas me observou com olhos sorridentes. Compreensão mútua. Acho que foi aí que ficamos.
KADICHARI M.