24.2.09
Um Copo de Cólera
Um homem e uma mulher.
Homem bruto, rural, tosco. Mulher inteligente, independente, amante.
A primeira parte do livro, em seus dois capítulos, mostra o lado "macho-fêmea" da relação do casal. O lado em que ela é dominada, e ele domina, e estão ambos felizes em seus fetiches satisfeitos. Ambos estão profundamente conectados, em gestos, em imagens, am atos.
Logo a situação muda. Ao passo que eles se levantam para tomar banho, percebemos que é ela quem cuida dele. Há uma conexão quase maternal no modo como eles se comportam, ela lavando seu cabelo, passando-lhe sabonete, secando-o, vestindoo, penteando-o; ele aceitando do bom grado todos os tratos, como um menino que não tem jeito para se arrumar, que precisa de ajuda e aceita a ajuda daquela em que confia.
É muito importante ressaltar, antes de passar para a parte mais importante do romance/conto, que a história é quase em absoluto narrada por ele, a não ser pelo capítulo final. É importante porque ao observar o livro, sem mergulhar nele, ele pode parecer cansativo (UOU, cinqüenta e duas páginas num só parágrafo!), quando não é de forma alguma.
Ele é empolgante justamente por se tratar de um fluxo de pensamentos momentânios, iniciados no café-da-manhã, quando ele percebe a dondoca que está à sua frente. Já desgostoso, percebe as saúvas: formigas danadas que lhe fizeram um buraco na cerca viva!
Rompante! Como se visse alguém sendo assassinado, ele se levanta estrondosamente, corre à dispensa e apanha veneno para as formigas, sempre pensando que aquilo não pode acontecer com ele, mais exaltado do que deveria estar, irritado, machucado, como se corroído por dentro. Formigas mortas, segunda parte da raiva.
Ele se vira, jubilante, para encontrá-la, a sua dondoca, conversando com a empregada! A "gente do povo" que ela tanto exaltava. Idiotice, idiotice. Segundo rompante: ela faz uma piadinha. Um comentário que o diminui, que o transforma num idiota.
Ah, ele não aguenta. Primeiro humilha a empregada, depois se vira para ela, ele tem que acabar com ela. Não consegue. Como, pois, conseguiria um bruto, um homem da fazenda, ganhar nas palavras de uma jornalista? Ela mostra pra ele. Ela só é dominada quando quer. Exercendo o papel de mulher, e não de fêmea, não há a mínima chance de uma vitória dele.
Então ele apela. Apela para os fetiches, para a fêmea que ela guarda. Horrorizada, ela vai embora. E ele chora.
Afinal ele é um menino. Ele precisa dela.
A parte final do livro é narrada por ela. É quando ela volta para ele, quando ela mostra que o perdoa e sempre o perdoará, porque meninos são assim. Eles agem antes de pensar, e se arrependem quando pensam. O arrependimento é suficiente. Ela volta.
p.s.: livro pra se ler de uma vez.
KADICHARI M.
criado por kadichari
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