12.2.09

Lixo

Por algum tempo o gravetinho se movimentou para a direita e para a esquerda, a esmo, enquanto ela sentava meio sem rumo na calçada. A poeira fina e negra na qual ela desenhava riscos caprichados aderia à sua pele, e aos poucos os dedos e quase toda a palma estavam acinzentados e incomodamente grossos.

A ironia não era um de seus elementos preferidos. Havia a espera, o trabalho árduo, o resultado, e a ironia. A ironia era que nada seria recompensado. Planos subitamente arrancados do chão ainda na forma de sementes, puta raiva sendo plantada no lugar. Ela esticou as pernas para a rua de modo a conseguir deitar na calçada quente.

E se o caminhão recolhedor do lixo passasse por cima dela naquele momento? Não seria irônico? Não era irônico que ela dentre todos tinha permanecido de pé e seguido, quando ela dentre todos não tinha se esforçado para isso? Não era irônico que haviam árvores de puta raiva crescendo mais frondosas que o freixo de resultados dela?

O julgamento era mais duro que sua própria vontade de crescer; ela diminuía, diminuía, até que não pudessem mais vê-la, como nos desenhos animados estúpidos e enganosos. Enganosa.

Bem queria que tudo acabasse. Acabasse, acabasse.

ESTRONDO.

O caminhão recolhedor de lixo passou, e agora sim ela estava bem.

KADICHARI M.

 

criado por kadichari    19:34 — Arquivado em: Crônicas

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