11.1.09
Drown
O cheiro azul daquelas lágrimas a fizeram lembrar-se dos olhos que costumavam prender e guiá-la, e ela se pegou perguntando sobre o que estava fazendo ali. Não era sua a responsabilidade e ela era toda constrangimento, enquanto o olhar molhado do outro procurava nela a salvação. A salvação que ela não era; ela desviou o olhar. As lágrimas então se desfizeram em soluços que soavam como buracos negros.
O ar saiu e entrou em seus pulmões ruidosamente, para que então se obrigasse a encará-lo.
- Por favor, economize as lágrimas - murmurou quase sem força, a memória ainda em outros olhos azuis. O efeito foi inverso, de repente parecia que havia lágrimas o suficiente para formar um oceano. Qual seria? Ela meio que gostava do mar Mediterrâneo, tão misterioso e profundo…
Os soluços a interromperam. Soluços acabavam com a beleza do rosto lavado, acabavam com o brilho sincero no olhar, tranformando-os ambos em sombras cruéis e sofridas. Lembrou-se dos olhos que não soluçavam, e sentiu as pequenas perolinhas quentes escorrendo por suas próprias bochechas. Precisava de seus olhos e sabia que eles não voltariam.
- Eu não posso aguentar - sussurrou, trêmula, escondendo-se sem olhá-lo. Ele a abraçou, soluçando insuportavelmente, sugando escuramente suas forças para desvencilhar-se. Ela tremulava, e pensou mais uma vez nos olhos. Recusara-se a vê-los fechados, e se perguntava se tinha sido a escolha certa. Afinal, precisava acostumar-se com a idéia de que não ia mesmo vê-los de novo.
Os soluços acabaram, e ela empurrou-o.
- Você devia chorar tudo o que pudesse agora - ele disse, quando ela se levantou e começou a andar na direção oposta.
- Ela não ia querer que eu chorasse, imbecil. Ela não ia querer nem que eu ligasse para isso. E eu não ligo; porque ela não liga. Ela nem respira, como poderia pensar? Vá embora. Você completamente arruinou tudo.
Ele abriu a boca para responder, mas não pôde. Ela se virou e andou o mais rápido que pode, enquanto as memórias sobre os olhos derretiam-se e afogavam o resto de seu cérebro.
KADICHARI M.
criado por kadichari
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Comentário por Manu — 13.1.09 @ 21:00
nossa.. com tanto choro.. eu quase choro tb.. hauhauhau