24.1.09

Ilusão

Às vezes ela achava que estava sozinha. Não estava, mas era tão forte a sensação que ela se enraivecia com todos à sua volta por não lhe darem companhia quente o suficiente. Eram odiosos todos aqueles que se preocupavam tanto com seus próprios narizes que não podiam ver o dela. Não viam o dela! Crime imperdoável.

Às vezes ela ouvia as pessoas chamando-na arrogante. Então pensava em tudo o que eles faziam contra ela, todas as palavras duras que tinha que ouvir só porque ninguém a compreendia. Sentia pena daqueles que espalhavam coisas terríveis sobre ela só para esconder sua mesquinharia e falta de tato, só para tentar perdoar as suas faltas para com ela.

Às vezes parecia que ninguém gostava dela. Não riam das suas piadas, porque ela era a piada. Ela só podia pensar que eles se reuniam depois para listar todas as gafes que ela cometia. Afinal ela tinha um filtro muito bom para piadas de mau-gosto, e a única explicação para não rirem é que não gostavam dela. Ela era uma aberração, uma pessoa boa entre tantos leitões.

Às vezes ela sentia vontade de se machucar. As pessoas criticavam sua felicidade, achavam que ela devia ligar para os problemas dos outros, ajudá-los, mas ora; ajudar àqueles tantos que só a desprezavam e nunca pensavam no bem dela? E o bem dela? Ela precisava de vários bens diferentes. Não poria ninguém no caminho disso, ninguém merecia. Ela era definitivamente unstoppable, precisava de um pouco de realidade.

Mesmo que não soubesse exatamente o nome do que precisava.

Houve uma vez em que alguém olhou nos olhos dela. E ela reconheceu imediatamente a arrogância no olhar dele; era a mesma que encarava em seus próprios olhos no espelho, sob outro nome. Então ela se apaixonou.

Ele era tudo que ela desprezava; ainda sim ele era tudo o que havia nela. A simples complexidade do que ela não entendia tomou forma real, e então ela pôde tocar, cheirar, soletrar a realidade. Era o suficiente.

Às vezes ela pensa em como ainda está apaixonada, e em como a realidade desprezou-a tão mais forte que qualquer outra pessoa.

KADICHARI M.

 

criado por kadichari    23:15 — Arquivado em: Crônicas

12.1.09

Vazios

Houve um estalo alto, e então uma poeira leve, cinzenta e incrivelmente volumosa tomou o cômodo para si. Ele fechou os olhos um segundo mais tarde do que deveria, e sentiu lágrimas misturarem-se com a agitação da poeira em frente à sua tosse. Abanou as mãos, a tosse se tornando um quase vômito poeirento, tentando abrir um raio mínimo em torno de sua cabeça para olhar para cima.

Certo. Primeiro tinha de se levantar. De onde vinha tanta poeira? Sentou-se e tentou abrir um pouco os olhos, só uma pequena fenda: a massa cinza pareceu sentir e comprimiu com força seu rosto, penetrando suas narinas já secas e bloqueando sua traquéia. De onde vinha tanta poeira? Se levantou de vez, e sentiu meio que um redemoinho em torno de si, apesar de não ousar abrir os olhos novamente. Tateou procurando as paredes, mas a poeira não o deixaria.

Tossiu.

Que espécie de armadilha mortal era aquela?

Ele levou as mãos à cabeça em desespero. Então riu.

O buraco vazio no topo de seu crânio lhe explicou de onde vinha toda a poeira. Ele deitou-se novamente e desejou que ela voltasse à forma cerebral antes de retomar seu lugar.

KADICHARI M.

criado por kadichari    21:28 — Arquivado em: Crônicas

11.1.09

*

Alguém me empresta uma faca que atravesse costelas?

KADICHARI M.

criado por kadichari    22:58 — Arquivado em: Críticas

Drown

O cheiro azul daquelas lágrimas a fizeram lembrar-se dos olhos que costumavam prender e guiá-la, e ela se pegou perguntando sobre o que estava fazendo ali. Não era sua a responsabilidade e ela era toda constrangimento, enquanto o olhar molhado do outro procurava nela a salvação. A salvação que ela não era; ela desviou o olhar. As lágrimas então se desfizeram em soluços que soavam como buracos negros.

O ar saiu e entrou em seus pulmões ruidosamente, para que então se obrigasse a encará-lo.

- Por favor, economize as lágrimas - murmurou quase sem força, a memória ainda em outros olhos azuis. O efeito foi inverso, de repente parecia que havia lágrimas o suficiente para formar um oceano. Qual seria? Ela meio que gostava do mar Mediterrâneo, tão misterioso e profundo…

Os soluços a interromperam. Soluços acabavam com a beleza do rosto lavado, acabavam com o brilho sincero no olhar, tranformando-os ambos em sombras cruéis e sofridas. Lembrou-se dos olhos que não soluçavam, e sentiu as pequenas perolinhas quentes escorrendo por suas próprias bochechas. Precisava de seus olhos e sabia que eles não voltariam.

- Eu não posso aguentar - sussurrou, trêmula, escondendo-se sem olhá-lo. Ele a abraçou, soluçando insuportavelmente, sugando escuramente suas forças para desvencilhar-se. Ela tremulava, e pensou mais uma vez nos olhos. Recusara-se a vê-los fechados, e se perguntava se tinha sido a escolha certa. Afinal, precisava acostumar-se com a idéia de que não ia mesmo vê-los de novo.

Os soluços acabaram, e ela empurrou-o.

- Você devia chorar tudo o que pudesse agora - ele disse, quando ela se levantou e começou a andar na direção oposta.

- Ela não ia querer que eu chorasse, imbecil. Ela não ia querer nem que eu ligasse para isso. E eu não ligo; porque ela não liga. Ela nem respira, como poderia pensar? Vá embora. Você completamente arruinou tudo.

Ele abriu a boca para responder, mas não pôde. Ela se virou e andou o mais rápido que pode, enquanto as memórias sobre os olhos derretiam-se e afogavam o resto de seu cérebro.

KADICHARI M.

criado por kadichari    0:09 — Arquivado em: 100themes

1.1.09

Blink

Vento, chuva, neve e calor A acompanhavam. Era hora, embora não houvesse tempo. Havia a preguiça, mas Ela não se livraria dela. O quê, para jogar na humanidade? Eu fico com a preguiça. A questão era só quando Ela teria coragem de criar a humanidade.

Suspirou, esticou os braços numa forma quase rude de espreguiçamento. Bah, bah. As demonstrações climáticas se afastaram dEla e Ela se sentou numa pedra para fazer pinturas rupestres. Bateu palmas e as luzes se acenderam, surgidas dos confins do novo mundo.

Estava satisfeita!

Agora só faltava a humanidade. Deitou-se e dormiu, obrigando-se a sonhar com o que quereria para seus próximos primatas.

Bípedes, com a caixa craniana adaptada ao controle de sons e o cérebro inclinado à comunicação, portanto ao pensamento. Se acharão especiais, e serão, à sua maneira. Tal obra prima não se compararia nem aos dinossauros, Seus xodós. Sentou-se de repente.

Precisaria acabar com a humanidade algum dia! O impacto que deixariam num tempo relativamente pequeno (a comunicação seria MUITO útil) serviria de casa para novas espécies e eles teriam de sair de cena; os melhores espécimes passando a acompanhá-La como aquele braquiossauro. Mas como se extinguiriam? Inteligentes como seriam, lutariam contra qualquer coisa predizível. Não poderia usar o clichê meteorito de novo!

Suspirou. Certo, teria de fazê-los um pouco defeituosos. De modo que a maioria agisse com ganância limitada à sua própria vida, e não a de sua espécie. De modo que lutassem para encobrir a morte iminente para fazerem uma boa vantagem para si mesmos durante o tempo que lhes restasse. Sim, deixaria em suas mãos a política, a organização de classes, a vida em sociedade, para que conflitos e divisões fossem criados.

A destruição dessa nova espécie não estaria nas mãos dEla. Bingo!

Então Ela piscou. Responsabilidades eximidas, lavava suas mãos a partir dali.

KADICHARI M.

criado por kadichari    2:55 — Arquivado em: 100themes

Break

Qual a onomatopéia para um galho se partindo?

E um coração?

O meu fez bum!

KADICHARI M.

criado por kadichari    2:41 — Arquivado em: 100themes

Resoluções de Ano Novo.

            Ano novo, novas as reclamações. São muitas cositas das quais é preciso se livrar antes de recomeçar a amontoá-las. Reflexões a se fazer, resoluções a se tomar. Desabafo! Esse ano definitivamente não foi bom. Emocionalmente desgastante, financeiramente insuficiente, intelectualmente pobre.

            Na soma geral, perdi mais pessoas que ganhei. E sim, dou muita importância a isso. Pessoas que ganhei; pessoas que ganhei e perdi; pessoas que perdi; e uma pessoa que eu perdi definitivamente, de verdade. Sofregamente posso dizer que chorei muito mais que o normal. E o fim do ano traz a perspectiva nova de não encontrar pessoas que eu já tinha há tanto tempo que me desacostumei das ausências delas. Mesmo com as promessas de estarei por perto. No final ninguém está.

            Os planos profissionais, de estudo, de fontes rentáveis e super-inteligência adquirida, encerraram-se num ano medíocre; na média, onde não fiz mais nem menos do que o socialmente esperado. A diversão foi rasa, mas a seriedade também, e a mim me parece que estive flutuando por todo o ano. O vazio ainda não foi preenchido. A morosidade, o grande tédio provocado; pedido, implorado, necessitado.

            Não li, não estudei, não vi grandes filmes, não tive grandes conversas reflexivas e minha maior conquista foi saber que sabia mais que alguém. E isso me parece o consolo dos perdedores. “Sabe, tem mais gente abaixo de você que acima!” Puta mediocridade! Essa sou eu, essa fui eu, durante todo esse ano. Morte, dengue, viagens, brigas, conflitos internos e dor. Não sei se é razão o suficiente. Por estar tão insatisfeita, me parecem só desculpas.

            Desculpas, desculpas, desculpas. Proferidas, recebidas, não aceitas exigidas, necessárias, culpadas. Meu ano foi uma grande caixa de desculpas. Então quero mudar o texto: quarteto, José, Deyvid, Aísha, obrigado por momentos bons.

            Deyvid, precisamos marcar outro cinema!

criado por kadichari    2:34 — Arquivado em: Reflexões

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