16.12.08
Need
Ela levantou-se da grama quando ele se aproximou, e ouviu-o bufar e apressar os passos. Quando exatamente começara - ou deixara de - sentir aquilo? Qual fora o ponto de ruptura?
- Espera - a voz dele saiu rouca, fraca. Ela sabia que ele não conseguiria manter o fôlego por muito mais tempo andando àquela velocidade, e sentiu-se intimamente enojada de si mesma por ter conseguido conviver com todos os problemas dele por tanto tempo. Parou, virou-se.
Ele se curvava sobre si mesmo, as mãos brancas apoiadas nos joelhos, a respiração enevoada parecia machucá-lo ainda mais. Ele caiu sentado, sem jeito, a respiração entrecortada fazendo-lhe desesperar.
- Por favor - ele ainda sussurrou, antes que ela se aproximasse e o puxasse pelas mãos, apoiando-o pesadamente nos ombros e levando-o até o abrigo mais próximo: uma pequena casa de madeira usada pelas crianças da vizinhança em brincadeiras realistas sobre seus futuros familiares. Era ligeiramente mais quente lá dentro.
Ele se apoiou à madeira mofada, os olhos abertos e estranhamente vítreos, a respiração ainda barulhenta, encarando os cabelos dela com seriedade. Ela ergueu o rosto e ele sorriu.
- Por favor, me explique - ele terminou a frase que tentara construir lá fora, e ela fez uma careta chorosa antes de soltar a verdade numa explosão salivar.
- Eu cansei! Quanto mais eu tentava pensar sobre como não valeria a pena desistir desse amor, mais percebia que não havia mais amor; eu não tinha dúvidas sobre o futuro, eram certezas. Certezas de que eu não seria feliz com você.
As pálpebras dele tremeram, ainda mais abertas. Não piscaria, gravaria aquela imagem. Aquela imagem deprimente, ele gravaria.
- Por que hoje? POR QUE HOJE? - ele gritou, agitando os braços e cuspindo nela - Por que você não poderia ter-me avisado de suas certezas ontem? Ou um mês atrás? Por que você me fez pagar por esse vestido idiota se ia acabar sentando-se na lama com ele? Por que se obrigou a fingir nesse dia que seria o meu melhor? - ele queria xingá-la, despedaçar aquele rosto bonito e amedrontado com sua lividez.
Esqueceu-se completamente dos pulmões, do ar frio, saiu da casa e correu de volta ao local de cerimônia, deixando-a lá, com seu vestido branco enlameado, a tiara torta na cabeça, o penteado já completamente desmanchado. Não aceitaria aquilo. Não aceitaria.
Ela permaneceu calada, chorando baixinho, ouvindo os passos dele se afastarem, e de repente a sensação de perda tomou conta dela. Perdi-o! Perdi-o! Meu bem mais precioso, eu o perdi!
Inconsciente quase, parou a pensar no que já não mais queria, e percebeu que não queria nada. Queria apenas a simplicidade de quando eles não precisavam se importar com os problemas burocráticos do relacionamento. Sabia que ele podia ser uma pessoa relaxada, que o houvera sido, mas não mais era. Não mais o era.
Então ouviu. O som que se coordenou com as batidas do seu coração de modo assustador. Parou, olhando para a entrada da casinha mofada, esperando. Mais perto, cada vez mais perto estava o seu salvador, o seu sentimento de volta. Não teve tempo de soltar gritos de alívio quando ele entrou no cubículo porque ele logo a tomou para si.
Eles finalmente estavam em sintonia. O que queriam não era o casamento caro que estava planejado e quase realizado quando ela fugiu. O que queriam era a fugacidade da relação escondida.
- Ela foi embora - ele disse aos pais que o esperavam na porta da igreja desde quando foram atrás dela. Ergueu uma mão quando a mãe se aproximou com uma expressão de piedade e ela parou - Vou caminhar.
E então voltara para ela. E ela para ele. Era só do que precisavam para o dia mais feliz de suas vidas.
KADICHARI M.
criado por kadichari
21:58 — Arquivado em: 

Comentário por Manu — 16.12.08 @ 23:19
Cara q lindo… Amei
Quase chorei… sério mesmo…
Parabéns Aretha… ^^