17.12.08

Through the Fire

Ela despedaçou a folhinha seca, ligeiramente deprimida. Sabia o que estava acontecendo, já vira acontecer com outros. Quando nossa mente muda levemente o que aconteceu, para que vivamos felizes com nossas memórias. Ou para que nos sintamos culpados por atrocidades e procuremos nos desculpar de alguma maneira, quando no fim a atrocidade passou despercebida para o outro e as desculpas fizeram o seu dia.

Eram como as imagens vistas através do fogo, onde o calor forma ondas que oscilam e deformam a imagem a frente, ora pendendo para uma melhor, ora para uma pior. Nisso só dependia a dúvida: se você era ou não uma boa pessoa. Ela sabia que não era.

Buscou outra folha no chão lotado delas. Outono, seria? Baque grande para acontecer numa estação tão feia como o outono. Na primavera ela talvez não ligasse.

Era uma injustiça. Uma injustiça porque ela não sabia o que fazer diante do que nem sabia que tinha acontecido. Tinha tão bem distorcido tudo aquilo… tão bem distorcido. Sentia-se bem consigo mesma, pensando mal daqueles que tinham medo dela. Não lhe faziam pouco, mas ela a eles, sim. E mereciam?

Nunca!

Certo, talvez não nunca. Mas com certeza mereciam menos que ela. De repente seu ponto de vista parecia obtuso, prepotente, arrogantemente cego. E suas lágrimas eram opacas e desimportantes. Merecidas. Merecidas.

Outra folha. Outro limbo despedaçado. Outra coisa que não era como já fora. Mas isso não era sua culpa, ela sorriu levemente a pensar. As folhas já estavam ressecadas quando as pegou. Isso era culpa do outono. E quantos outonos já haviam feito isso com outras? Não era o fim do mundo. Ao contrário, o começo de um novo ciclo.

O outono encontraria novas folhas para ressecar; o fogo outras histórias para deformar; e ela outras pessoas para as quais mentir.

Se não estava, tudo ficaria bem.

KADICHARI M.

criado por kadichari    23:52 — Arquivado em: 100themes

16.12.08

Need

Ela levantou-se da grama quando ele se aproximou, e ouviu-o bufar e apressar os passos. Quando exatamente começara - ou deixara de - sentir aquilo? Qual fora o ponto de ruptura?

- Espera - a voz dele saiu rouca, fraca. Ela sabia que ele não conseguiria manter o fôlego por muito mais tempo andando àquela velocidade, e sentiu-se intimamente enojada de si mesma por ter conseguido conviver com todos os problemas dele por tanto tempo. Parou, virou-se.

Ele se curvava sobre si mesmo, as mãos brancas apoiadas nos joelhos, a respiração enevoada parecia machucá-lo ainda mais. Ele caiu sentado, sem jeito, a respiração entrecortada fazendo-lhe desesperar.

- Por favor - ele ainda sussurrou, antes que ela se aproximasse e o puxasse pelas mãos, apoiando-o pesadamente nos ombros e levando-o até o abrigo mais próximo: uma pequena casa de madeira usada pelas crianças da vizinhança em brincadeiras realistas sobre seus futuros familiares. Era ligeiramente mais quente lá dentro.

Ele se apoiou à madeira mofada, os olhos abertos e estranhamente vítreos, a respiração ainda barulhenta, encarando os cabelos dela com seriedade. Ela ergueu o rosto e ele sorriu.

- Por favor, me explique - ele terminou a frase que tentara construir lá fora, e ela fez uma careta chorosa antes de soltar a verdade numa explosão salivar.

- Eu cansei! Quanto mais eu tentava pensar sobre como não valeria a pena desistir desse amor, mais percebia que não havia mais amor; eu não tinha dúvidas sobre o futuro, eram certezas. Certezas de que eu não seria feliz com você.

As pálpebras dele tremeram, ainda mais abertas. Não piscaria, gravaria aquela imagem. Aquela imagem deprimente, ele gravaria.

- Por que hoje? POR QUE HOJE? - ele gritou, agitando os braços e cuspindo nela - Por que você não poderia ter-me avisado de suas certezas ontem? Ou um mês atrás? Por que você me fez pagar por esse vestido idiota se ia acabar sentando-se na lama com ele? Por que se obrigou a fingir nesse dia que seria o meu melhor? - ele queria xingá-la, despedaçar aquele rosto bonito e amedrontado com sua lividez.

Esqueceu-se completamente dos pulmões, do ar frio, saiu da casa e correu de volta ao local de cerimônia, deixando-a lá, com seu vestido branco enlameado, a tiara torta na cabeça, o penteado já completamente desmanchado. Não aceitaria aquilo. Não aceitaria.

Ela permaneceu calada, chorando baixinho, ouvindo os passos dele se afastarem, e de repente a sensação de perda tomou conta dela. Perdi-o! Perdi-o! Meu bem mais precioso, eu o perdi!

Inconsciente quase, parou a pensar no que já não mais queria, e percebeu que não queria nada. Queria apenas a simplicidade de quando eles não precisavam se importar com os problemas burocráticos do relacionamento. Sabia que ele podia ser uma pessoa relaxada, que o houvera sido, mas não mais era. Não mais o era.

Então ouviu. O som que se coordenou com as batidas do seu coração de modo assustador. Parou, olhando para a entrada da casinha mofada, esperando. Mais perto, cada vez mais perto estava o seu salvador, o seu sentimento de volta. Não teve tempo de soltar gritos de alívio quando ele entrou no cubículo porque ele logo a tomou para si.

Eles finalmente estavam em sintonia. O que queriam não era o casamento caro que estava planejado e quase realizado quando ela fugiu. O que queriam era a fugacidade da relação escondida.

- Ela foi embora - ele disse aos pais que o esperavam na porta da igreja desde quando foram atrás dela. Ergueu uma mão quando a mãe se aproximou com uma expressão de piedade e ela parou - Vou caminhar.

E então voltara para ela. E ela para ele. Era só do que precisavam para o dia mais feliz de suas vidas.

KADICHARI M.

criado por kadichari    21:58 — Arquivado em: 100themes

15.12.08

Snow

A neve semi-compactada não afundava muito com seus passos; provavelmente aquele era um lugar de média circulação de pessoas. Não fazia diferença, porém, no momento: dificilmente qualquer rua é movimentada às três da manhã.

Virando o último gole da garrafinha metálica com pesar, ele deixou-se cair sentado na calçada branqueada pela nevasca constante. Arquejava à guisa de respirar, olhos fechados e pensamentos borrados na velocidade da luz. Deu uma risada (ou o que em sua situação poderia ser considerado uma risada) ao perceber que ainda se lembrava das fórmulas da relatividade restrita de Einstein.

- O intervalo de tempo final é igual ao intervalo de tempo inicial sobre a raiz de um menos a velocidade do corpo ao quadrado sobre a velocidade da luz no vácuo ao quadrado, considerando-se velocidades próximas à da luz _ ele riu novamente, de verdade, e começou a tossir. Curvou-se para o lado, ou para frente, curvou-se cuspindo o sangue escarlate que sua garganta expulsava.

Vomitado todo o sangue, voltou à posição inicial, ligeiramente mais pálido ou esverdeado. Os arquejos começaram a ser entrecortados pelo frio: a neve começara a molhá-lo; não estava agasalhado o suficiente. Suspirou, deitou-se.

Passou algum tempo mirando as gotas escarlates no branco branquíssimo da neve. Chegou a sorrir levemente, viajante, antes de fechar os olhos, ainda pensando parcamente, ainda pensando no desenho tintado pelo seu sangue naquele papel não usual, ainda pensando que ele poderia assemelhar-se a um coração, poderia com seu ângulo e sua visão evanescente, assim ele viu.

E foi calmo que ele pensou, por último, que cuspira seu coração na neve. Então não pôde mais pensar, mesmo que suas células berrassem que haviam atingido o zero absoluto, zero Kelvin, menos duzentos e setenta e três graus Celsius.

- Registre isso, seu imbecil! Não continua cientista? - era o que elas gritavam, inconscientes de que estavam sozinhas agora.

KADICHARI M.

criado por kadichari    0:52 — Arquivado em: 100themes

8.12.08

Nada

- E agora?

- Agora nada.

Ambas concordamos. De tudo, nada. Da história, da convivência, da felicidade momentânea, os gritos e os abraças, de tudo, nada mais restava. Nem os rastros, porque eles foram apagados, enterrados, assim que deixados. Escolha nossa, enfim.

Agora nada. No nada jaz meu amanhã.

KADICHARI M.

criado por kadichari    21:30 — Arquivado em: Crônicas

2.12.08

Urban

Rely on your fucking self. She’d learned that, all her life spent trying to fit when finally someone yelled at her: "RELY ON YOUR FUCKING SELF!"

She wouldn’t hang on to others anymore. She wouldn’t even try. She’d just do it for herself, ‘cuz that’s the only way things get done right. The only way.

And she’d start fucking up the life of that who yelled at her. "Nobody yells at me, I’m an independent lady! I’ll do it myself, don’t yell at me!". Later the mess’d be pointed to those who thought she didn’t fit. "I fit, I’m an independent lady. I do the measures myself, I fit!". Then she’d ruin those who got her raised and fed. "I can raise myself, I can feed myself, I’m an independent lady. I’ll make the rules, just don’t try and raise me!"

So she went, facing up, taking down, any and everything on her way. Just as she relied on herself, she got stronger, more confident, but not smarter. No, not smarter. Never diplomatic, mandatorily violent.

Rely on herself? NOT ENOUGH! She had to have people relying on her. People who respected her, feared her. She could do it herself, she could kill them herself, so they’d better obey.

Well, that until the day this boy decided she was prone to be unreasonable, then decided to rely on himself. And she was faced up, taken down, never really fitted.

Oh, urban kids.

KADICHARI M.

criado por kadichari    14:19 — Arquivado em: 100themes

1.12.08

Raivinha, sim

A situação está piorando.

Sinto pelos que ficam e estagnam, e guardo mágoa sólida dos que estagnaram todo o processo.

E mesmo que eu fique, o meu caminho não estagna, não. O meu sou eu quem faço, e enquanto eu depender de mim, pode saber que tem um fantasma tentando estagnar VOCÊ.

KADICHARI M.

criado por kadichari    22:04 — Arquivado em: Reflexões

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