24.11.08

Safety

Nunca reparara como passos na chuva, ou nas poças dela, soavam como um chapinhar. Chapinhar a lembrava de porcos. Porcos chapinhando e comendo pérolas no meio da rua, nas poças da chuva.

Lama e água até os joelhos. Cara, havia um inferno em suas calças! Quem diabos inventou os jeans? Estava já ficando muito pesado. O casaco ensopado demais, a calça escorregando e molhando (sujando) suas pernas já suadas. E aquele calor? Decidiu não se proteger da água. Deixou o casaco por sobre alguma poça qualquer para que uma moça donzela qualquer se sentisse honrada.

Não tirou as calças, mas lembrou-se de uma camiseta seca que por algum motivo ainda estava em sua mochila. Entrou no primeiro estabelecimento e dirigiu-se ao banheiro, onde verificou que sim, ela ainda estava seca. Trocou por ela a molhada, deixando-a na pia e saindo bem mais leve. Leve, a não ser por aquelas calças.

Jeans não foram feitos para chuva, para poças, muito menos para se passar muito tempo neles. Começou a tentar desgrudá-los da perna, e se sentiu digna de asco. Cansou de andar. Sentou-se.

Era uma esquina, era uma poça, estava chovendo. Estava frio! Frio, frio, ela não percebera o frio. Talvez fosse melhor andar. Friccionou as mãos, tirou os tênis e brincou de encharcar as meias com lama. Colocou-as de volta nos tênis e se levantou; não gostava do frio. Tornou a andar e sentiu que a camiseta seca já tinha se tornado molhada.

Olhou em volta antes de atravessar, por algum motivo. Não havia carros nas ruas. Não havia pessoas na cidade. Ela não sabia pra onde ia nem porque as roupas tanto a incomodavam. Sabia que não precisaria delas. Atravessou a rua e percebeu que a mochila havia ficado para trás. Não, não voltaria.

Putz, não agüentava aquilo. Tirou a camiseta e deixou-a num canto. Ah, a quase liberdade. Sentia-se vencedora de um tabu. Era como se a chuva nem molhasse a parte despida de seu corpo.

Andou por não soube quanto tempo. Divagava por todas as áreas de pensamento possíveis, perguntava-se sobre sua vida. Revia sua vida. Era um filme estranho. Garotinha de sei lá quantos anos que vivera sei lá quantas aventuras por razão nenhuma. Para correr perigo, para manter-se longe do amor, para buscar a felicidade artificial, aquela que você é quem faz, que não nasce feita, aquela construída por ela mesma. Como se aquilo fosse mesmo felicidade.

Parou de repente. Em frente um nada azul, luzes fluorescentes delineando o ar, como um portão de entrada ao vácuo. Sentia-se atraída por aquilo, mas sabia que não podia entrar. Por algum motivo não podia entrar.

Sentou-se fronte àquilo, aquilo porque outra denominação não se pode dar. Sentou-se esperando a resposta. A resposta… riu. Que resposta se não fizera pergunta? Estava acostumada demais àquilo. Era sua comodidade. De repente percebeu as calças molhadas, enlameadas, das quais gostara mas que agora lhe eram só um fardo. Só um fardo. Do qual precisava se livrar.

Ergueu-se já mostrando toda a pele. O vácuo sorriu para ela e a deixou seguir para a segurança, livre de qualquer coisa que chamaremos terrena por falta de nome apropriado.

Concluíra seu caminho.

KADICHARI M.

criado por kadichari    22:36 — Arquivado em: 100themes

Lugares (na Vida)

Sabe o que é desespero?

Está chegando o momento, se é que ele já não chegou, de escolher. De separar. De decidir coisas que há muito decidi que não quero decidir. A capacidade de desapego é parca, e a ambição é muita pro que eu posso aguentar. As coisas vêm se fechando, se encerrando, para que novos ciclos comecem.

Sabe aquele medo de mudança? Não sabia que eu tinha tanto. E de repente, assim, de uma decisão repentina já de outra, eu me ponho pensando se tudo que eu tinha como certo é o certo pra mim.

Me ponho pensando se os valores que eu tinha, que eu achei que eram meus por direito, por vida, por decisões anteriores, se os valores ainda são os mesmos. Eu cresci? Não queria.

Quero minha impessoalidade de volta. Quero aquela época em que era fácil priorizar o pensamento, a lógica. De alguma maneira as coisas estão mais complexas agora.

Tenho em mim, marcados, a memória de cada um dos sentimentos que me provocaram as pessoas cujos nomes eu lembro (ou não!). Esse lugar é meu. Esse lugar é meu.

Quero um presente que se lembre do meu passado. Não quero estar só no passado de ninguém. Já não bastam "os homens que caíram pelo caminho".

Esse lugar é meu.

KADICHARI M.

criado por kadichari    22:02 — Arquivado em: Reflexões

Report abuse Close
Am I a spambot? yes definately
http://kadichari.blog.terra.com.br
 
 
 
Thank you Close

Sua denúncia foi enviada.

Em breve estaremos processando seu chamado para tomar as providências necessárias. Esperamos que continue aproveitando o servio e siga participando do Terra Blog.