11.11.08
Triangle
Ele a via passar por sua poltrona, inerte, quase consciente da inconsciência que tinha dela. O coturno, a maquiagem, a escuridão que ela tentava clamar, passavam por ele neutros, levemente injustificados, incompreendidos. A TV continuava ligada sem interferências, de qualquer maneira.
O resmungo dele à sua passagem a incomodava. Sua rebeldia calada não parecia afetá-lo e ele não percebia a expressão raivosa. Ele não percebia nada. Era apenas um saco de batatas jogado na poltrona, neutro a sua passagem, levemente injustificado, incompreendido. As escadas recebiam suas pisadas duras sem ranger, de qualquer maneira.
A outra entrava na sala e chamava pelos dois. Impossíveis eram aqueles dois nomes na mesma sentença, e ela era sempre duplamente ignorada. O volume da TV aumentava, os passos na escada se apressavam até um bater de portas e ela voltava ao lugar de onde saíra. Uma mera progenitora-servente tentando superar sua neutralidade, levemente injustificada, incompreendida. A panela não saiu da boca do fogão de qualquer maneira.
Três ângulos.
Nenhuma verdade.
KADICHARI M.
criado por kadichari
16:27 — Arquivado em: 

Comentário por Felipe — 17.11.08 @ 8:55
Equilatero ou Escaleno?