25.11.08

Hipocrisias

- O que importa é o que você é, não o que você tem! - a frase retumbou, reverberou, silenciou. Não sei se ele ouviu minha risada abafada; nem me importa. Hipocrisia daquele pseudo-professor narcisista que queria ganhar em dólar, comprar um carro novo, mudar de cidade e nunca mais ver seus aluninhos pseudo-queridos.

Não estava ali de verdade. Era uma casca infeliz, covarde, era uma representação de si mesmo no que deveria ser, ter, falar. Nunca soube se sentia pena ou vontade de rir, rir imensamente daquele homem que jogava sua superioridade sobre nós, só para sentir-se melhor sobre o fato de que não era mais adolescente e feliz com nossa inferioridade.

Gritava e se empolgava ao falar do vazio da vida, da importância da felicidade, sonhava acordado enquanto dormíamos. Apenas as aulas que ele tentava dar a si mesmo e que não nos envolviam eram interessantes.

Acho que ele odiava a própria vida. Limitava-se suas letras às suas pornografias, suas palavras à vida de alguém, sua felicidade a momentâneos lapsos de verdade.

Fingia a vida e pretendia fingir a morte, talvez fugir para seu amor dos dezessete anos, fugir da hipocrisia da vida vazia, vida feia, que vivia.

Não é nada reconfortante, nada aliviante, porque ainda estou eu nos meus dezessete anos. Evoluir, evoluir, evoluir.

KADICHARI M.

criado por kadichari    12:16 — Arquivado em: Crônicas

24.11.08

Safety

Nunca reparara como passos na chuva, ou nas poças dela, soavam como um chapinhar. Chapinhar a lembrava de porcos. Porcos chapinhando e comendo pérolas no meio da rua, nas poças da chuva.

Lama e água até os joelhos. Cara, havia um inferno em suas calças! Quem diabos inventou os jeans? Estava já ficando muito pesado. O casaco ensopado demais, a calça escorregando e molhando (sujando) suas pernas já suadas. E aquele calor? Decidiu não se proteger da água. Deixou o casaco por sobre alguma poça qualquer para que uma moça donzela qualquer se sentisse honrada.

Não tirou as calças, mas lembrou-se de uma camiseta seca que por algum motivo ainda estava em sua mochila. Entrou no primeiro estabelecimento e dirigiu-se ao banheiro, onde verificou que sim, ela ainda estava seca. Trocou por ela a molhada, deixando-a na pia e saindo bem mais leve. Leve, a não ser por aquelas calças.

Jeans não foram feitos para chuva, para poças, muito menos para se passar muito tempo neles. Começou a tentar desgrudá-los da perna, e se sentiu digna de asco. Cansou de andar. Sentou-se.

Era uma esquina, era uma poça, estava chovendo. Estava frio! Frio, frio, ela não percebera o frio. Talvez fosse melhor andar. Friccionou as mãos, tirou os tênis e brincou de encharcar as meias com lama. Colocou-as de volta nos tênis e se levantou; não gostava do frio. Tornou a andar e sentiu que a camiseta seca já tinha se tornado molhada.

Olhou em volta antes de atravessar, por algum motivo. Não havia carros nas ruas. Não havia pessoas na cidade. Ela não sabia pra onde ia nem porque as roupas tanto a incomodavam. Sabia que não precisaria delas. Atravessou a rua e percebeu que a mochila havia ficado para trás. Não, não voltaria.

Putz, não agüentava aquilo. Tirou a camiseta e deixou-a num canto. Ah, a quase liberdade. Sentia-se vencedora de um tabu. Era como se a chuva nem molhasse a parte despida de seu corpo.

Andou por não soube quanto tempo. Divagava por todas as áreas de pensamento possíveis, perguntava-se sobre sua vida. Revia sua vida. Era um filme estranho. Garotinha de sei lá quantos anos que vivera sei lá quantas aventuras por razão nenhuma. Para correr perigo, para manter-se longe do amor, para buscar a felicidade artificial, aquela que você é quem faz, que não nasce feita, aquela construída por ela mesma. Como se aquilo fosse mesmo felicidade.

Parou de repente. Em frente um nada azul, luzes fluorescentes delineando o ar, como um portão de entrada ao vácuo. Sentia-se atraída por aquilo, mas sabia que não podia entrar. Por algum motivo não podia entrar.

Sentou-se fronte àquilo, aquilo porque outra denominação não se pode dar. Sentou-se esperando a resposta. A resposta… riu. Que resposta se não fizera pergunta? Estava acostumada demais àquilo. Era sua comodidade. De repente percebeu as calças molhadas, enlameadas, das quais gostara mas que agora lhe eram só um fardo. Só um fardo. Do qual precisava se livrar.

Ergueu-se já mostrando toda a pele. O vácuo sorriu para ela e a deixou seguir para a segurança, livre de qualquer coisa que chamaremos terrena por falta de nome apropriado.

Concluíra seu caminho.

KADICHARI M.

criado por kadichari    22:36 — Arquivado em: 100themes

Lugares (na Vida)

Sabe o que é desespero?

Está chegando o momento, se é que ele já não chegou, de escolher. De separar. De decidir coisas que há muito decidi que não quero decidir. A capacidade de desapego é parca, e a ambição é muita pro que eu posso aguentar. As coisas vêm se fechando, se encerrando, para que novos ciclos comecem.

Sabe aquele medo de mudança? Não sabia que eu tinha tanto. E de repente, assim, de uma decisão repentina já de outra, eu me ponho pensando se tudo que eu tinha como certo é o certo pra mim.

Me ponho pensando se os valores que eu tinha, que eu achei que eram meus por direito, por vida, por decisões anteriores, se os valores ainda são os mesmos. Eu cresci? Não queria.

Quero minha impessoalidade de volta. Quero aquela época em que era fácil priorizar o pensamento, a lógica. De alguma maneira as coisas estão mais complexas agora.

Tenho em mim, marcados, a memória de cada um dos sentimentos que me provocaram as pessoas cujos nomes eu lembro (ou não!). Esse lugar é meu. Esse lugar é meu.

Quero um presente que se lembre do meu passado. Não quero estar só no passado de ninguém. Já não bastam "os homens que caíram pelo caminho".

Esse lugar é meu.

KADICHARI M.

criado por kadichari    22:02 — Arquivado em: Reflexões

22.11.08

Horrorific

She never knew how long she’d been standing there for. She knew it had been a long time; she realized it had been more than the expected. She was expected.

Mysterious, pretty. Petit. She looked ahead for she couldn’t look behind. She cried for there was no one to hold her. One’d think I’d like to be there, and they’d be right. What she left was too much, and while she went all alone, all her luggage was stuck with us.

Stuck…

She put those thoughts into a sack, and hid it; no longer did she need them, or want them. She was up for something bigger, prettier, cooler and so much disconnected from all of those.

Ahead was the way. Ahead lied the beach, the Redeemer, ahead lied the future. A terrific one. Even with that little bit of horror.

KADICHARI M.

criado por kadichari    18:56 — Arquivado em: 100themes

11.11.08

Wrath

And he could no longer hold it. It was gross and heavy like dry sweat would make him feel. It was poisonous and crappy, he could actually feel the acid coming out of the hole on his stomach.

Wrath. His, God’s, everybody else’s. Twirling, revolving, blowing his guts up and out.

Up and out. Up and out, he shouted. Up to the top and out of this world. Blow your fucking head off, they won’t miss it. Just make sure it goes up and out. I gotta watch it.

Let him do it. It’d be like an orgasm if he had the chance to blow God’s head off! Have you seen His head?

God ain’t a woman! Lucifer is! And she is mad at them. At Him, specifically. Put it on fire. God’s gotta see His lamb burning.

She told him He didn’t care. Who God?, he asked, and she twisted his world. He tried to blow God’s head off, but missed it. It was actually his head. Better this way than any other, his spread bloody brain thought.

Lucifer laughed.

Brainstorming.

KADICHARI M.

criado por kadichari    16:38 — Arquivado em: 100themes

Triangle

Ele a via passar por sua poltrona, inerte, quase consciente da inconsciência que tinha dela. O coturno, a maquiagem, a escuridão que ela tentava clamar, passavam por ele neutros, levemente injustificados, incompreendidos. A TV continuava ligada sem interferências, de qualquer maneira.

O resmungo dele à sua passagem a incomodava. Sua rebeldia calada não parecia afetá-lo e ele não percebia a expressão raivosa. Ele não percebia nada. Era apenas um saco de batatas jogado na poltrona, neutro a sua passagem, levemente injustificado, incompreendido. As escadas recebiam suas pisadas duras sem ranger, de qualquer maneira.

A outra entrava na sala e chamava pelos dois. Impossíveis eram aqueles dois nomes na mesma sentença, e ela era sempre duplamente ignorada. O volume da TV aumentava, os passos na escada se apressavam até um bater de portas e ela voltava ao lugar de onde saíra. Uma mera progenitora-servente tentando superar sua neutralidade, levemente injustificada, incompreendida. A panela não saiu da boca do fogão de qualquer maneira.

Três ângulos.

Nenhuma verdade.

KADICHARI M.

criado por kadichari    16:27 — Arquivado em: 100themes

5.11.08

Tempo

Fim de ano e a desocupação tende a diminuir.

O Tempo passando rápido demais para que eu possa administrar corretamente os meu afazeres, me dividindo da preguiça ao ócio durante as poucas horas livres das tardes; manhãs repletas de aulas e provas e provas e aulas; noites super badaladas no cursinho (¬¬’); sábados dando aula e domingos… Ainda tem domingos na semana?

Então, o 100themes vai atrasar. Como vai atrasar minha super resenha de ensaio sobre a cegueira como um conjunto Saramago+Meirelles, como já atrasaram (alguém ainda lembra disso?) as criticas de Crônicas de Nárnia. Ainda faltam três e suspeito que vou ter de reler esses livros.

Então… (sou cortada aqui quando o próprio tempo me grita: "Não há mais tempo! Fecha as cortinas e volta pra rotina!")

KADICHARI M.

criado por kadichari    16:41 — Arquivado em: Reflexões

1.11.08

Cut

- Há quanto tempo ele está lá mesmo? - ela estava preocupada, por algum motivo. Ambos sentados na varanda do casarão com suas xícaras de café não-expresso feito por escravos em todo o seu ciclo de produção.

Ele tirou o cinto numa imagem ameaçadora mesmo que ridícula; mas apenas deixou-o cair no chão, aliviando a pressão em sua cintura.

- Pelo menos uma hora - sua voz saiu pastosa, e a mulher percebeu que ele estivera dormindo na cadeira antes da pergunta.

- Você devia estar mais preocupado com ele.

- Porque ele gosta de flores?! - o homem riu escancarado em sua surpresa - Ora, até parece.

- Não havia razão para lhe dar um jardim - ele riu novamente e se levantou.

- Deixa ele, mulher.

Ela apenas suspirou quando ele entrou na casa, e não o seguiu. Mantinha os olhos grudados no filho, bem adiante no vasto jardim que a vista apreciava. Adiante, fronte a um canteiro de tulipas. Seu canteiro de tulipas. Parecia conversar com elas! Ora, uma providência há de ser tomada.

Então no jantar jantavam ambos silenciosamente. Alguém da criadagem contara a ele o que a mulher mandara fazer. Estavam ambos esperando o filho; ela feliz, ele duro.

Não demorou muito e a voz dele foi se avolumando pelo corredor. Ouviram os passos pesados, os gritos com os homens que o tentavam segurar, e por fim um deles sendo derrubado pela força criada para que ele pudesse aparecer na sala de jantar.

Tinha um olhar senil, lunático em sua barba por fazer; roupas sujas de terra, rasgadas. Havia sangue em suas mãos, não-metaforicamente.

- O que houve com elas? O que vocês fizeram com elas? Onde estão elas?

- Filho, por favor - o pai tentou interceder, mas o filho andava de um lado para o outro e não queria ouvir outra coisa que não a resposta de sua pergunta.

- Não! Eu as ouvi gritar, mas não posso mais! Onde as colocaram? O que fizeram com minhas tulipas?

- Eu as mandei cortar - disse a mãe, num ímpeto corajoso e estúpido, imediatamente arrependida pela aproximação do filho. Nunca o tinha visto tão de perto, nem mesmo quando ele nascera. Aquele grande rosto barbado e sujo, os olhos balançando assustadoramente por entre os seus. Era seu filho?

- Assassina! - ele gritou, cuspindo no rosto dela - Assassina! - gritou novamente, e o pescoço dela estava sujo de sangue e terra por sob suas mãos esganadoras - Assassina!

O pai apenas observou. Precisava olhar muito atentamente para pensar no que diria depois. Viu os olhos matadores dele tirarem todo o brilho de vida dos olhos dela, soltou o garfo e deu a ordem.

- Lavem-na e ponham-na na cama. Chamem o médico mais chinfrim que possam encontrar. Ela morreu dormindo.

O filho olhou para ele, o olhar agora calmo e carinhoso.

- Obrigado, pai _ murmurou, enquanto fazia um sinal para que lhe servissem o jantar.

KADICHARI M.

criado por kadichari    14:08 — Arquivado em: 100themes

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