- Há quanto tempo ele está lá mesmo? - ela estava preocupada, por algum motivo. Ambos sentados na varanda do casarão com suas xícaras de café não-expresso feito por escravos em todo o seu ciclo de produção.
Ele tirou o cinto numa imagem ameaçadora mesmo que ridícula; mas apenas deixou-o cair no chão, aliviando a pressão em sua cintura.
- Pelo menos uma hora - sua voz saiu pastosa, e a mulher percebeu que ele estivera dormindo na cadeira antes da pergunta.
- Você devia estar mais preocupado com ele.
- Porque ele gosta de flores?! - o homem riu escancarado em sua surpresa - Ora, até parece.
- Não havia razão para lhe dar um jardim - ele riu novamente e se levantou.
- Deixa ele, mulher.
Ela apenas suspirou quando ele entrou na casa, e não o seguiu. Mantinha os olhos grudados no filho, bem adiante no vasto jardim que a vista apreciava. Adiante, fronte a um canteiro de tulipas. Seu canteiro de tulipas. Parecia conversar com elas! Ora, uma providência há de ser tomada.
Então no jantar jantavam ambos silenciosamente. Alguém da criadagem contara a ele o que a mulher mandara fazer. Estavam ambos esperando o filho; ela feliz, ele duro.
Não demorou muito e a voz dele foi se avolumando pelo corredor. Ouviram os passos pesados, os gritos com os homens que o tentavam segurar, e por fim um deles sendo derrubado pela força criada para que ele pudesse aparecer na sala de jantar.
Tinha um olhar senil, lunático em sua barba por fazer; roupas sujas de terra, rasgadas. Havia sangue em suas mãos, não-metaforicamente.
- O que houve com elas? O que vocês fizeram com elas? Onde estão elas?
- Filho, por favor - o pai tentou interceder, mas o filho andava de um lado para o outro e não queria ouvir outra coisa que não a resposta de sua pergunta.
- Não! Eu as ouvi gritar, mas não posso mais! Onde as colocaram? O que fizeram com minhas tulipas?
- Eu as mandei cortar - disse a mãe, num ímpeto corajoso e estúpido, imediatamente arrependida pela aproximação do filho. Nunca o tinha visto tão de perto, nem mesmo quando ele nascera. Aquele grande rosto barbado e sujo, os olhos balançando assustadoramente por entre os seus. Era seu filho?
- Assassina! - ele gritou, cuspindo no rosto dela - Assassina! - gritou novamente, e o pescoço dela estava sujo de sangue e terra por sob suas mãos esganadoras - Assassina!
O pai apenas observou. Precisava olhar muito atentamente para pensar no que diria depois. Viu os olhos matadores dele tirarem todo o brilho de vida dos olhos dela, soltou o garfo e deu a ordem.
- Lavem-na e ponham-na na cama. Chamem o médico mais chinfrim que possam encontrar. Ela morreu dormindo.
O filho olhou para ele, o olhar agora calmo e carinhoso.
- Obrigado, pai _ murmurou, enquanto fazia um sinal para que lhe servissem o jantar.
KADICHARI M.