23.9.08

Desculpas

- Como você acha que é morrer? - a voz dela veio fraca, e eu desviei das estrelas celestes para as no rosto dela. Ela olhava para mim, e parecia com medo.

Tornei a virar para o céu e puxei-a para um abraço meio de lado, tentando fazê-la sentir-me ali. Porque eu sabia que ela não estava sentindo. Eu sabia que há algum tempo ela não sentia; e a dor, quem sentia era eu.

- Não tenho idéia. Mas não importa.

- Eu gostaria de saber antes de acontecer.

- Eu gostaria de poder morrer só para te contar.

Num primeiro momento, não percebi que tinha pronunciado tal pensamento. Só quando senti a mão dela subir ao meu pescoço enquanto ela se apoiava no cotovelo para bloquear a minha visão do céu e ser meu foco.

- Desculpa - ela sussurrou. E foi assustador.

De repente vinham à minha mente todas essas imagens com a palavra mais improvável que ela poderia dizer. A palavra que estivera flutuando durante tanto, tanto tempo, mas que aparentemente nunca seria enunciada.

Eu senti as lágrimas dos meus olhos juntando-se às dos olhos dela, à percepção de que não havia nada mais entre nós.

Todos os jogos psicológicos acabaram naquele instante, o instante em que as estrelas da minha estrela encontraram os meus olhos. A vontade de rir foi suprimida por uma enorme decepção.

A decepção de perceber o quão idiota estava sendo. O quanto tive que trabalhar para acabar com tudo aquilo, como um aluninho de sétima série que quer manter a namorada mais velha, mais bonita e mais inteligente que ele. E o quanto ela não dava a mínima.

"Desculpa", porque eu começava a amadurecer. "Desculpa", porque eu pude ver claro o que acontecia.

Não preciso de desculpas.

KADICHARI M.

criado por kadichari    14:15 — Arquivado em: Crônicas

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