13.9.08
Enchente
Eu provavelmente me arrependeria. Eu disse provavelmente? Ok, certamente.
Nunca houve um ponto favorável em trazê-la de volta pra minha vida. Nunca veio disso algo de bom. Mas não posso evitar; não podia. Até aprender que devemos resistir a coisas momentaneamente boas mas que ferram com toda a sua vida, ah, até aprender. Foram-se acho que umas quatro vidas. Entre as abstinências dela, entre as presenças dela. Ambas igualmente invasivas, como uma enchente que carrega todos os seus móveis.
Sim, todos os meus móveis. Só me resta a pequena almofada molhada que eu segurava; todo o resto foi embora. Minha almofada pulsando, irreparável agora. Porque agora eu sei que a abstinência é completa e vai durar por um tempo relativamente longo.
Não vou trazê-la de volta. Ela é o cigarro de maconha que eu nunca consegui provar sem tossir. Ela é a cocaína da overdose de risadas que eu imagino ter provocado.
Não vou trazê-la de volta. Minha almofada vermelha e molhada continua a espera, mas ela é a única coisa que sobrou da enchente e não vai jogar-se em tal precípicio. Mesmo rasgada e molhada ela continua inteira, e pretendo manter-me assim por algum tempo.
Não vou trazê-la de volta.
Por favor, volta sozinha!
KADICHARI M.
criado por kadichari
10:00 — Arquivado em: 
