12.9.08
Rotina
Acho que minha felicidade mais plena eram aqueles dias em que andava pelas ruas à hora do jantar. Saindo da rotina por alguns minutos, só para sentir que nada perdia quando não tinha coragem de mudá-la.
Só aqueles fragmentos de conversas, talheres chocando nos pratos e os cheiros das massas ou do bom feijão, só aquilo era capaz de me entorpecer. Tem jeito de entender uma realidade tão longe da sua? Eu sentia as vozes altas baterem disritmadas ao meu coração, e sabia que aquilo não era pra mim.
Ah, pena. Pena daqueles que necessitavam de tanto calor. Eu lembro bem daquela família: pelo menos dez pessoas amontoadas em torno de mesas de plástico bamboleando com pesadas travessas, cheias de uma comida qualquer, e o cheiro se misturava às vozes e chegava a mim como rosbife falante, ambulante, que me acompanhou por toda a noite e me acompanha ainda.
Que diabo de rotina é essa? Que diabo de rotina exige tanto esforço, tanta tolerância?
Por que eu me submeteria a tal prova de paciência?
Qual é a grande vantagem de incluir-se em tais rituais hipócritas capitalistas sedentários nojentos cheios de baba e dentaduras?
E eu voltava à minha rotina. Sempre, sempre. Não sentia falta. Não senti falta. Nunca.
Não se sente falta do que não se tem.
Principalmente quando o gramado é mais verde do lado de cá.
KADICHARI M.
criado por kadichari
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