1.7.08

As Crônicas de Nárnia (Vol. II)

Existe uma máxima entre os cinéfilos-leitores de plantão, que diz mais ou menos isso: "Um filme nunca é tão bom quanto poderia ser, se você tiver lido antes o livro correspondente". Sim, sim. Virão comparações, e, no final, aquele inevitáveis "ah, mas eles não incluíram minha parte preferida!". Assistir ao filme sem ler o livro é, basicamente, uma oportunidade de curtir a película sem interferências e, quando finalmente ler o dito cujo, perceber que todos os pequenos cortes ainda permitem que tudo faça sentido.

Claro, já encontrei alguns filmes que me satisfizeram mesmo que o primeiro contato tenha sido o livro - Orgulho e Preconceito, por exemplo. Pois bem, O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa é uma dessas excessões.  E uma excessão bem particular.

Essa Crônica começa com uma explicação pequena e fácil - como todo o resto - sobre por que os Pevensie estão na casa do Professor Kirke (que é o pequeno Digory do primeiro livro). Palavras curtas e secas, como se não importasse muito. Ponto para o filme, com toda aquela introdução melosa. Aliás, nessa introdução começa já o que é basicamente o melhor aspecto do filme: eles corrigiram lindamente a ignorância de Lewis (e por ignorância, por favor entendam que não o estou chamando burro!).

De uma maneira bizarra (já usei esse termo antes?), C. S. coloca Edmundo como uma pessoa má. Uma pessoa que não teria motivos pra fazer o que fez, que só queria humilhar e ser cruel, que andava no caminho do mal. Edmundo é uma criança. Uma criança, que tem ciúmes da irmã mais nova - Lúcia é, afinal, a mais fofa dos quatro, e reflete, por coincidência, a afilhada do autor -; um menino que é subjugado pelo poder confiado ao irmão, que ele sabe não merecer, pois é Pedro também uma criança; e, principalmente, uma criança que gosta de doces, que está afastada dos pais, que procura um apoio e o tempo todo recebe esporros de seus irmãos. Ele tinha motivos.

O que me parece extremamente forçado é a menção do mau, mau, mau Edmundo. Mesquinho, malvado, gosta de humilhar, mau, imbecil; são todos usados mais de uma vez para descrever o menino. Quando, ao receber o suco da Flor de Fogo de Lúcia, para ser curado, "ele estava de pé, não só curado dos ferimentos, mas com uma aparência bem melhor do que antes. Com uma aparência melhor até do que no tempo em que entrou para a escola e começou a seguir pelo mau caminho. Agora, não. Já podia olhar as pessoas de frente."

Os roteiristas do filme, felizmente, perceberam o quão antiquado seria retratar uma criança de tal modo. E fizeram um trabalho bonito, que compreende não só o que de errado Edmundo faz, mas as atitudes arrogantes de Pedro, o modo como ele gostou do "carinho" da Feiticeira, e tudo o mais já citado acima. (Confesso que Edmundo é uma graça e o meu preferido; principalmente porque já estou cá a uns dois livros d’O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa).

Claro, eles também corrigem coisas básicas como a folha em branco que é Susana (sério, sem opinião e com falas escassas, é só uma seguidora de Pedro - e isso continua até A Última Batalha, porque Susana claramente não era a personagem preferida do autor). E de certa forma, a simplicidade com que tudo se desenvolve e, principalmente, se resolve, é bem mais verossímil nas telonas (onde os acontecimentos devem ser resumidos em duas horas).

Certo, alguns pontos para o filme. Tornemos para o livro, agora: você já viu o filme e pretende ler as Crônicas? Passe direto pelo Volume II. O Príncipe Caspian foi, sim, bastante modificado, talvez traga algumas surpresas (boas ou ruins; surpresas), mas não, não leia o Leão a Feiticeira e o Guarda-Roupa!

Com todo respeito, o livro é um filme (ou O filme). Não traz em si a força das palavras, o impacto que as impressões e opiniões causam, as descrições exatas e felizes da literatura, aquelas que te fazem rir e chorar. As Crônicas são narrativas infantis, e como narrativas infantis, são simplesmente narrativas. Repito, não faz diferença. O livro chega a ser bom. O entretenimento corre rápido, flui e acho que foram os livros que mais rápido li até hoje (três crônicas em dois dias). Mas falta algo. 

Ponto para o livro: os filmes não deixam tão claro a expressão "Santíssima Trindade" incutida em Aslam. É difícil explicar em poucas linhas: ele é onisciente, onipresente e onipotente; ele sabe o que se passa nos corações das crianças; a menção ao nome dele aquece e jubila a todos - menos, é claro, a Edmundo ("ele é mau, mas é irmão", disse Pedro), que sente horror e desespero quando ouve o nome do Leão.  "Pelo Leão", "Em nome do Leão", "Pelas jubas do Leão", "Em nome de Aslam", são básicos no enredo.

Depois de assistir ao filme, é o como se você estivesse simplesmente o revendo, em mais tempo, com os conceitos e preconceitos de Lewis. Enfim:

As Crônicas de Nárnia, Volume II, O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa: Paixão de Cristo.

KADICHARI M.

criado por kadichari    19:11 — Arquivado em: Críticas

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