15.6.08
Fora de si
A voz dele lhe chegava como um trovão. Enérgica, retumbante, forte, severa. Ela sentava-se e se encolhia na poltrona de veludo vermelho, sentindo os socos de cada palavra, cada emoção, falsas.
Queria ser como aqueles ao seu lado. Queria apreciar aquilo. Mas queria vomitar.
Como chegaram àquele ponto? Como puderam deixar-se afastar de tal maneira que ela só podia entendê-lo quando ele não era ele, e ele só podia gritá-la com seu eu lírico?
Não! Ela sentia-se esmagar e perder a respiração, sentia o peso da culpa desenrolar-se na voz dele, nunca tão límpida, tão convincente.
"Você fez a escolha de se esconder, de machucar; você escolheu estar por preguiça de ser, você escolheu não ligar; eu não escondo: te amo, mas temo não ligar mais para esse amor!"
Não ligar mais pra esse amor… Estiveram, sim, se escondendo. Ele em seu silêncio, seus desaforos baixos; ela em sua indiferença, em sua proteção. E agora, ele amargurava e fingia não ligar; ela se esmagava na culpa de o ter fechado fora de si. Fora de si.
Levantou-se, incapaz de permanecer no teatro. Estivera ela mesma fora de si. Não podia ficar ali, não podia falar com ele. Era cedo. Cedo demais para sair.
KADICHARI M.
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