30.6.08

Neblina

Ele andou pela neblina por tanto tempo que suas roupas já estavam molhadas. Neblina era um modo, aliás, lisonjeiro de se referir à espessa massa acinzentada que reunia orvalho novo, fumaça com fuligem vinda das fábricas de muros encardidos ao redor da cidade, e aquele vapor fedido das aberturas gradeadas no chão, ditas de escoamento mas que só escoavam o metano dos esgotos abaixo, para cima, para a cidade.

Os muros de tijolos vermelhos algum dia devem ter sido simpáticos, ele pensou. Devem ter sido construídos antes das grandes chaminés, quando o ar não cheirava a peixe ou a nenhum animal morto.

Tropeçando pela rua de asfalto esburacado, ele olhou por cima do ombro e parou. As mãos quentes, nos bolsos do casaco vermelho de um time de futebol qualquer, nem pensaram em deixar seu abrigo, e ele somente se agachou à aproximação do cachorro.

- O que ela quer de mim, Leta? - oh, sim, era cadela.

Como de se esperar, o animalzinho não respondeu. Tremia, tão molhada quanto as roupas dele. Ele riu ao seu choro e levantou-se, tornando a andar, ouvindo as patinhas molhadas dela chapinhando na lama reunida em cada poça.

- Olha, Leta, a loja de doces. É uma pena que tenham fechado, tinham um puxa-puxa delicioso. Parece que todos estão nos abandonando, não?

Ele sentiu a cadela em sua panturrilha, enquanto observava nostalgicamente através das vitrines vazias. As prateleiras empoeiradas, o gancho de ferro no qual a doce senhora Letícia costumava puxar e repuxar grandes massas róseas de chiclete.

Tudo há tanto, tanto tempo.

Leta latiu, e ele virou-se. Lá estava ela, parada, seu sobretudo branco já encardido com os gases fétidos espalhados pelo ar.

- Acho que você nos abandonou muito antes, Pedro. Olha pra você, olha para mim. Vai dizer que não está prendendo a respiração? Que lugar é esse? Precisamos ficar aqui?

Ele tornou-se para a vitrine. A verdade é que toda a cidade tinha se tornado um grande e podre cortiço, e não havia sequer uma casa ou prédio suntuosos nessa Gotham City. Também não havia Batman.

- Pedro?

Ele não respondeu. Não se lembrava dos mesmos campos verdes que ela se lembrava; não tinha gravados na mente os grandes pomares que ela tinha; nunca presenciara as festas alegres que se realizavam nos grandes pátios antes das chaminés chegarem. Ela tinha quinze anos de transição nas costas; e ele chegara quando a mudança já estava completa. Tudo o que entendia é que pertencia àquele lugar, porco ou não; e que se isso o constituía também porco, ele queria se lambuzar naquela lama.

Estavam lá, cinzentas e esfumaçadas, circundadas por lixo e vira-latas, as grandes construções que desgraçaram os ares campestres da cidadezinha. As casinhas tortas que seguiam por lá dos pátios, todas de empregados que perderam seus sustentos quando os tijolos e a poluição fabris chegaram às suas plantações, empregados que aos poucos se esvaíam, buscando a velha vida que perderam. Ou pelo menos uma que não incluísse a imperecível neblina cinza.

- Não, Lia. Não devo sair daqui. O que você espera, que eu não ame minha pátria? - ele virou-se gritando. A cadela correu para a mulher, que abanou a cabeça negativamente.

- Então fique. Fique, encare sua vitrines vazias, suas paredes sujas, trabalhe sozinho nessas fábricas nojentas, porque eu vou embora, e também a Leta vai comigo! _ ela estava chorando _ Se você não vê a decadência que te circunda, meu irmão, e eu não consigo abrir seus olhos, mesmo depois de todo esse tempo observando a lama chegar mais e mais perto do seu nariz…. Eu não vou esperar mais. Não posso! Você ainda é jovem, talvez se dê conta algum dia. Não vou temer por você.

Ela correu com a cadelinha acompanhando-a pelos pés, feliz.. Ele tornou a se virar para a vitrine, e por lá ficou até que o frio nas roupas molhadas não lhe permitiu mais pensar em nada. Sabia que ela não estaria mais lá quando retornasse, e era melhor assim. Era melhor assim.

KADICHARI M.

criado por kadichari    15:35 — Arquivado em: Crônicas

dicionário!

Eu e meu Oxford Advanced Learner’s Dictionary… Já teve vontade de ler um dicionário? Então, é o quão magnânimo ele é.

Você sabia que stroke possui onze significados como substantivo e quatro como verbo? Isso sem contar nos frasais, também incluídos na belezinha. Há tanto tempo pesquisando e, por fim, esperando um mês (¬¬)  para que a OxfordUniversity Press respondesse ao pedido da Escariz….

Isso aí, seguindo agora para uma leitura demorada, estudada, anotada, termo a termo, do meu Deathly Hallows. Afinal, pra que mais servem as férias?

É terminar as Crônicas de Nárnia, Entrevista com o Vampiro, Lucíola e os Contos Escolhidos de Machado, e é nóis (eu e meu dicionário liindo!).

Faltam quatro pras Crônicas… Que venha o Príncipe Caspian!

KADICHARI M.

p.s.: alguém sabe onde eu posso baixar a trilogia His Dark Materials, do Philip Pullman? Também serve em português, (As?) Fronteiras do Universo.

criado por kadichari    14:41 — Arquivado em: Reflexões

29.6.08

As Crónicas de Nárnia (Vol. I)

Raso.

O Volume I, O Sobrinho do Mago, não passa de uma grande (nem tanto, as 68 páginas no adobe passaram em três horas) introdução, que, sim, é completamente desnecessária. Certo, não completamente, é interessante, mas isso só aos que clamam não entender o porquê de os filmes começaram a partir do segundo volume das crônicas.

Primeiro, houve a especulação: estariam eles produzindo as crônicas em ordem de lançamento, não cronológica? Bem, creio que eles apenas descartaram o que poderia resultar num curta-metragem, sem grande ação ou aventura.

O Volume I, é o ano 0 de Nárnia. É quando o primeiro Filho de Adão (o Professor Kirke em cuja casa os Pevensie se hospedam durante a guerra) chega ao grande Nada com sua amiga Polly, um cavalo, um cocheiro, seu tio e, por eventos desencontrados, a Feiticeira Branca e um pedaço de poste. Ao cantarem para passar o tempo, despertam o canto de Aslan, e as coisas começam a surgir. O pedaço de poste que a Feiticeira carregava cai no chão e nasce, um pequeno postezinho! Sim, o Ermo do Lampião!

E o Guarda-Roupa, ah, sim, ele é mágico porque é feito de uma macieira plantada no nosso mundo, mas com sementes narnianas. Virou portal.

Enfim, nada demais. Escrita simples, muito simples, facilmente imagináveis (quando for falar do Volume II, isso vai ficar mais claro). Tudo sai tão fácil, tão magicamente. As alusões à Bíblia, ao Deus Aslam (Por Aslam, o criador; em nome de Aslam; Aslam é a única salvação; a pronúncia do nome de Aslam causa nas crianças uma sensação de Maravilha - a não ser no mau, mau Edmundo! - e, ops, isso já é d’O Leão, A Feiticeira, e O Guarda-Roupa), chegam a ser incômodas, e fica claro, bem claro que a intenção dos livros é recriar os livros sagrados em uma versão infantil.

A simplicidade se estende por tudo, e os valores espalhados pelo livro chegam a ser bizarros no âmbito atual. Lewis escreve "creio eu, no entanto, que Digory não teria de modo algum colhido a maçã para si mesmo. Coisas como NÃO FURTAR eram naquele tempo muito mais entranhadas nas cabeças dos meninos do que hoje", espera, creio eu? Sim, o tempo todo. Coisas como "vamos parar aqui e seguir para onde Tio André estava com os animais"; "penso que"; "creio que", estão presentes o tempo todo e todo o tempo na narrativa. Sim, é uma tentativa de aproximação infantil, que descreve o livro e não sua história.

E a maçã mencionada, de certa forma remete Adão e Eva no Jardim do Éden. Digory não deve comê-la ou usá-la para seu próprio bem, mas a Feiticeira a come; mantém-se jovem para sempre (até Aslam comê-la? Ah, isso é do filme, no livro ele só a mata, mesmo); e é expulsa de Nárnia. Expulsa de Nárnia! Vai para o Norte e começa a se fortalecer. É quando o mal assume (o Grande Inverno, disso falarei depois). Enfim:

Crônicas de Nárnia, Volume I, O Sobrinho do Mago: Gênesis (opa, isso também não é o Volume I de Heroes?)

KADICHARI M.

(sim, dei para fazer críticas agora. ¬¬ . Mas pelo menos por enquanto, vai ser só dos livros de Nárnia mesmo)

p.s.:
          Ordem de Lançamento das Crônicas:

O leão, a feiticeira e o guarda-roupa (1950)
Príncipe Caspian (1951)
A viagem do Peregrino da Alvorada (1952)
A Cadeira de Prata (1953)
O Cavalo e seu menino (1954)
O Sobrinho do Mago (1955)
A última Batalha (1956)

          Ordem Cronológica das Crônicas:

O Sobrinho do Mago (1)
O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa (1000)
O Cavalo e seu Menino (1014)
Príncipe Caspian (2303)
A Viagem do Peregrino da Alvorada (2306)
A Cadeira de Prata (2356)
A Última Batalha (2555)

criado por kadichari    11:32 — Arquivado em: Críticas

26.6.08

fantasies

They’ve got a piano in their living room. They live as if their lives were intellectually better.

Nobody hears the girl crying in the bathroom while the dad plays. Nobody cares if the boy can’t hold his mind off of his male pianist friend; he’s artistically interesting. Nobody watches the mom while she swallows tons of anti depressive pills and dives into the bathtub.

He doesn’t attend his husband jobs anymore. He exchanged his dick for the sax.

She doesn’t know what love is anymore. The Chicken Soup For The Soul didn’t help.

They never knew what it meant to be loved. Do your chores, learn your piano, get your A’s. Obey the weird structure.

I wanna be like my father, he’s so smart. I wanna be like my mother, she’s so pretty.

They’re so hollow, in their fantasy, hiding their secrets, refusing support.

They won’t even let me say how wrong they are. They’re so wrong! They’re so wrong!

KADICHARI M.

criado por kadichari    20:03 — Arquivado em: Crônicas

25.6.08

Gimme one more year and I’ll build up my tower…

(Só porque eu tinha que escrever um post sobre isso!)

Bem. Ontem eu tive a felicidade de comemorar mais um ano às minhas costas com muita comida chinesa (chop suey, curry e guaraná… yum!), e, bem, nem tava muito aí pra pensar sobre isso.

Mas, então. Às perguntas "como está se sentindo, mais responsável?", ou até ao "Agora você não é mais criança" (¬¬) da minha mãe, bem…

O que rolou nesse último ano? O que rolou?

Penso que esse ano foi meio "Branco Nulo" pra mim. Sim, consegui algumas coisas; sim, conquistei alguns amigos; sim, resolvi situações incômodas. Mas se você me pedir um resumo, não é isso que se destaca. Tantas frustrações, tantas coisas ruins (uma em especial, bah).

E eu… eu não sei. Eu mudei, mudei bastante, sim. Mas isso foi mais conseqüencia das pessoas e das coisas que passaram por mim do que meu próprio mérito. E se eu tenho experiência o suficiente pra dizer isso, esse não foi dos meus melhores anos.

O próximo, porém, promete. Porque…

 "[...] Os dons raros com que nasci talvez não frutifiquem se não forem nutridos e aprimorados por cuidadosa instrução. As habilidades antigas [...] devem ser transmitidas às novas gerações ou se perderão para sempre. O tesouro oculto chamado conhecimento [...] acumulado por nossos antepassados deve ser preservado, suplementado e polido por aqueles que foram chamados à nobre missão de ensinar.

[...] Assim deve ser, pois sem progresso haverá estagnação e decadência. Por outro lado, o progresso pelo progresso não deve ser estimulado, pois as nossas tradições comprovadas raramente exigem remendos. Então um equilíbrio [...] entre a permanência e a mudança, porque algumas mudanças serão para melhor, enquanto outras virão, na plenitude do tempo, a ser reconhecidas como erro de julgamento.

Entrementes, alguns velhos hábitos serão conservados, e muito acertadamente, enquanto outros, antigos e desgastados, precisarão ser abandonados. Vou caminhar [...] para uma nova era de abertura, eficiência e responsabilidade [...] ."

É, isso aí. Me dê mais um ano e eu construo minha torre.

KADICHARI M.

(dez galeões para quem acertar de onde veio o discurso - levemente editado, sim)

criado por kadichari    10:47 — Arquivado em: Reflexões

24.6.08

Mais um!

É, é, é, aniversário de novo. Festinha amanhã, e talz. Legal.

Pro garoto que não vai estar aqui, e devia, mas viajou em lua-de-mel pra Ilha, é bom que você não esqueça de me mandar pelo menos um scrap, viu?

Bem, sem saco pra escrever qualquer besteira em relação a aniversário, envelhecer e blá-blá… Comida chinesa hoje, só com a família (e Cleiton, claro, incluído na leva), já ganhei a guitarra, tudo massa.

Já recebi algumas mensagens no orkut, então estou até feliz!

Amanhã devo postar os restos da festa.

E, não podia esquecer, PARABÉNS, JÚLIA! Te ligo já, já…

KADICHARI M.

criado por kadichari    10:17 — Arquivado em: Reflexões

23.6.08

egoísmo

Pára e pensa no que você está fazendo. Pára e pensa. Pensa!

Enquanto você senta no seu pc, muito feliz com sua vida medíocre, pensa na vida que outros tiveram, ou não tiveram, ou estão tendo arrancadas de si agora. Você não é um deles.

Isso é motivo de comemoração.

Seja egoísta pelos motivos certos.

Enquanto você senta no seu pc, alegre com seu RPG carregando enquanto o sol levanta e você perde o sono, pensa em todo mundo que queria, ou precisava, ou está dormindo agora, com fome ou não, porque precisa acordar cedo pra fazer jus a qualquer coisa. Você não é um deles.

Isso é um motivo de comemoração.

Seja egoísta pelos motivos certos.

Enquanto você papeia no msn, feliz com amiguinhos que estão lá o tempo todo atrás da tela, pensa naqueles que não têm, não querem, que se afastam por um motivo ou outro e vêem sua vida não ser vida mas vitrine. Você não é um deles.

Isso é motivo de comemoração.

Seja egoísta pelos motivos certos.

Porque eu sento, e paro e penso e percebo, bato no teclado, na guitarra, sento no fundão, fico nem aí pra nada, fico no pc os dois quartos do dia que não durmo; e me sinto extremamente feliz em minha alienação!

Você não é um desses.

Isso é motivo de comemoração.

Seja egoísta pelos motivos certos.

KADICHARI M.

criado por kadichari    22:38 — Arquivado em: Crônicas

22.6.08

Boys, sing to your girlfriends!

É… Aqui estou eu, quase quase lá… Terça vai ser um dia feliz. Quarta também, eu espero (porque do jeito que o azar me persegue as pessoas VÃO arrumar coisa melhor pra fazer. Estou aqui só esperando as ligações).

Ah, sim, guitarra. Guitarra! Nova, nova, linda, linda. Amei, e fiquei barulhando já por tempo demais. Quero aprender, quero aprender. Está aí um objetivo? Espero.

Só o que sei é que foi divertido demais³ tocar parabens por aí, cantar Ludov com Breno, Paralamas com Nandinho, Vanessa da Mata com Rayza… É, rolou até Zé Ramalho na bonitinha ontem. ROX! Amo essa galera.

A guitarra veio, sim, me trazendo um novo ânimo. Estou aqui, e agora pra algo. Estou aqui, e vou tirando onda até onde der.

E ver Nandinho todo meloso porque Elô não tava lá, cantando com os pulmões (porque garganta ele não tem muita), me deixou tão feliz. Eles fazem um casal muito legal, e tô torcendo por eles.

E enquanto eu to longe de formar um casal, deixo a mensagem: garotos, cantem para as suas namoradas! É muito legal.

KADICHARI M.

criado por kadichari    16:26 — Arquivado em: miguxos!

15.6.08

Fora de si

A voz dele lhe chegava como um trovão. Enérgica, retumbante, forte, severa. Ela sentava-se e se encolhia na poltrona de veludo vermelho, sentindo os socos de cada palavra, cada emoção, falsas.

Queria ser como aqueles ao seu lado. Queria apreciar aquilo. Mas queria vomitar.

Como chegaram àquele ponto? Como puderam deixar-se afastar de tal maneira que ela só podia entendê-lo quando ele não era ele, e ele só podia gritá-la com seu eu lírico?

Não! Ela sentia-se esmagar e perder a respiração, sentia o peso da culpa desenrolar-se na voz dele, nunca tão límpida, tão convincente.

"Você fez a escolha de se esconder, de machucar; você escolheu estar por preguiça de ser, você escolheu não ligar; eu não escondo: te amo, mas temo não ligar mais para esse amor!"

Não ligar mais pra esse amor… Estiveram, sim, se escondendo. Ele em seu silêncio, seus desaforos baixos; ela em sua indiferença, em sua proteção. E agora, ele amargurava e fingia não ligar; ela se esmagava na culpa de o ter fechado fora de si. Fora de si.

Levantou-se, incapaz de permanecer no teatro. Estivera ela mesma fora de si. Não podia ficar ali, não podia falar com ele. Era cedo. Cedo demais para sair.

KADICHARI M.

criado por kadichari    20:43 — Arquivado em: Crônicas

14.6.08

assim…

Eu gosto de você assim, foi assim que você me conquistou.

Eu gosto de você assim.

Eu gosto de você assim.

Eu gosto de você assim.

Eu gosto de você ASSIM.

ASSIM.

criado por kadichari    11:39 — Arquivado em: Reflexões

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