18.5.08

sorrisos…

Senti o peso nas pálpebras enquanto movia meus olhos pelas últimas linhas daquela página com satisfação. Me forçaria a terminar o livro, o que deveria levar em torno de cinco minutos, depois me levantaria, preguiçosa, para preparar as coisas antes de dormir.

Há quase duas semanas não sentia aquela espécie de sono limpo, sem dor de cabeça, sem tristeza, febre ou luto, coisas que haviam se avolumado por um bom tempo, mantendo-me numa agonia constante.

Ora, pois tanto faz se durmo bem ou não, me obrigava a pensar. Mas a verdade era que eu realmente precisava de uma noite de sono. Tudo aquilo estava me mantendo aérea, afastada, chateada, e o mundo estava cinza; não havia a vontade de me levantar, de viver.

Deitar-me enrolada no cobertor amarelo, aquele frio delicioso pressionando meus olhos e mantendo-os fechados, o sono vindo e instalando-se, sem sonhos, sem sentimentos. A boa inércia.

Ele percebeu meu humor diferente na mesa do café.

- Dormiu bem? _ perguntou, com seus olhos azuis espertos sob as sobrancelhas ruivas. Sorri.

- Sim, muito. Finalmente me livrei da febre e da dor de cabeça, acho.

Vi-o sorrir daquela maneira enigmática que tanto me incomodava. Sabia que ele sempre me observava da porta por alguns minutos antes de entrar no quarto e ajeitar meu cobertor; estivera plenamente consciente disso quando apenas fingia dormir nessa semana, para não preocupá-lo; e imaginava se ele sabia. Imaginava se ele tinha me olhado com ternura e me beijado a testa antes de seguir para o seu próprio quarto, percebendo que dessa vez eu dormia de verdade.

- Isso é bom _ ele sussurrou, tornando a observar seu prato de ovos com um interesse peculiarmente demasiado.

- O que foi? _ perguntei, e ele me encarou com seriedade.

- O que houve? Durante essas semanas, quero dizer. Você sempre demorava a dormir, e parecia um meio-zumbi todo o tempo. Há muito não te via sorrir no café.

- Foi só a gripe _ disse, e ele suspirou.

- Não, não foi. Sei que recebeu uma carta de seu pai essa semana. Gostaria que você me dissesse o que tem te incomodado.

- Não incomoda mais, Júlio. Não precisa se preocupar.

Ele hesitou por algum tempo, considerando se insistir nas perguntas estragaria mais ainda o bom humor da manhã. Ele devia estar esperando por esse bom humor para tocar no assunto, e estragá-lo não lhe traria nada produtivo. Calou-se, portanto.

- Júlio? _ chamei, e ele me olhou, surpreso com a minha voz trêmula.

- Você não… o que houve? _ ele perguntou. Suspirei.

- Ele descobriu o que o tem mantido frequentemente doente. É um tumor, no pulmão. Não tem mais chances. Ainda estava me acostumando à idéia.

Ele manteve-se calado por algum tempo. Abaixou e tornou a levantar os olhos por duas vezes, depois suspirou.

- Eu imaginei que fosse algo relacionado a isso. Realmente sinto muito. Você vai visitá-lo antes de ir embora?

- Não sei. Letícia disse que ele está muito fragilizado. Não sei se seria bom vê-lo _ ele apenas acenou com a cabeça e mudou de assunto.

- Que livro você estava lendo ontem?

- O que você me emprestou. Como é mesmo o nome?

- A Menina Que Roubava Livros. Bom livro. Gostou?

- Sim, muito. Você ainda o quer de volta? _ perguntei, naquela voz manhosa que ele bem conhecia. Ele riu e abanou a cabeça negativamente.

- Pode ficar, contanto que me prometa que sempre que relê-lo lá em Nova Iorque irá lembrar-se de mim.

Sorri e pensei em nós dois. Tudo o que Júlio representava para mim. Sempre me protegendo, me divertindo, me ajudando. Conversava comigo com aquele olhar de ternura, aquele olhar amoroso de quem admira, e me fazia sentir tão especial. Júlio era mais que um irmão ou um pai ou um namorado. Ele era um amigo especial, um amigo que reunia as três funções e beijava minha testa quando eu já estava dormindo, estendendo o cobertor para melhor me cobrir.

- Júlio? _ tornei a chamar, e ele olhou para mim com um sorriso estranho. O tom da minha voz continuava pidão, e ele parecia divertir-se em conceder meus desejos.

- Sim?

- Você iria a Sampa comigo? Eu gostaria que você conhecesse meu pai.

Ele apenas sorriu, o mesmo sorriso que me aceitara como inquilina do seu quarto de hóspedes, o mesmo sorriso que pospusera nosso primeiro beijo, o mesmo sorriso que ele daria quando eu lhe dissesse sim, dali a alguns dias.

Não devia me apoquentar.

KADICHARI M.

criado por kadichari    20:19 — Arquivado em: Crônicas

1 Comentário »

  1. Comentário por Manu — 18.5.08 @ 20:57

    gostei bastante… parabéns

    Poucas as vezes q li seus textos… mas esse q li… amei
    rsrsrs

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