30.5.08

she’s leaving home

She (We gave her most of our lives)
is leaving (Sacrificed most of our lives)
home (We gave her everything money could buy)
She’s leaving home after living alone for so many years.
Bye, bye

She (We never though of ourselves)
Is leaving (Never a thought for ourselves)
home (We struggled hard all our lives to get by)
She’s leaving home after living alone for so many years.
Bye, bye

She (What did we do that was wrong)
Is having (We didn’t know it was wrong)
Fun (Fun is the one thing that money can’t buy)
Something inside that was always denied for so many years.
Bye, Bye

KADICHARI M. (Lennon)

criado por kadichari    23:02 — Arquivado em: Excertos

28.5.08

(justificando) nada

- Tudo bem? Tá melhor? Melhorou? Tudo bem hoje?

Sim, tudo bem! Como ontem estava tudo bem! Putz, será que eu não posso ter um momento de inquietude, um momento de exaspero?

Nada me fez ficar daquele jeito. Nada específico, pelo menos. A frustração de um monte de coisas juntas é que me deixou inquieta, muito inquieta, explodindo, e se eu não parasse, sentasse e refletisse, com meu (finado!) fone no ouvido, eu não ia agüentar. Porque ninguém é obrigado a agüentar o tempo todo.

Ninguém é obrigado a agüentar o tempo todo.

Assim como houve um período em que eu estava amando todo mundo excessivamente, excessivamente próxima, excessivamente acolhida; há algum tempo venho me sentindo distante de todo mundo. E, certo, talvez seja minha culpa. Mas não acho que seja. Eu não estou me afastando. São essas pequenas coisas, que ninguém é obrigado a agüentar o tempo todo.

Ninguém é obrigado a agüentar o tempo todo.

Porque, e é a primeira vez que eu falo disso, desde que a primeira pá de terra foi jogada, desde que eu desabei ali… A vida não nos prepara pra nada. Ela se joga, nos joga, e nunca se ocupa em te dizer o que é real ou não. Eu tenho certeza do que foi real, mas, sinceramente, não quero mais ter. Não quero porque ali, naquele momento, era impossível acreditar que ela existira tão rápido, tão forte, porque era impossível acreditar que houvesse um motivo, porque era impossível acreditar em qualquer coisa. Eu passei uma semana chorando e achei que tinha superado, mas não tinha. Não dá. E tenho tentado esquecer. Não quero sentir tal dor. Eventualmente, acabo deixando sair. Ninguém é obrigado a agüentar o tempo todo.

Eu não sou obrigada a agüentar o tempo todo.

O que eu tinha ontem? Nada, especificamente. Saudade, mágoa, frustração, tristeza, luto… Nada, especificamente. Estava mesmo tudo indo bem. Ainda está. Acho que foi só minha motivação que se foi.

Ningüém é obrigado a agüentar o tempo todo. E eu agüentei, muita coisa, por muito tempo.

KADICHARI M.

criado por kadichari    22:11 — Arquivado em: Reflexões

27.5.08

Esses sentimentos

Entalados, engasgados

Mortos, enterrados

Revolvendo, revirando

Escavando, escalando

Encontrando

O caminho de volta

KADICHARI M.

criado por kadichari    13:58 — Arquivado em: Poemas

25.5.08

espadas

Sai pra lá com suas ideologias furadas

Vá embora e leve as espadas

Lave as espadas

E leve-as daqui

Saia e deixa minhas ideologias intactas

Fixa minhas palavras exatas:

SAI DAQUI!

Não quero, não posso ficar parada

Não tenho sangue de barata

Tudo não vai ficar assim

Não pode ficar assim

Então eu digo:

Lave e leve as espadas

Ideológicas ou não, suas furadas

Não pertencem a mim.

 

criado por kadichari    22:58 — Arquivado em: Poemas

desisto!

Praguejando, ela levantou-se, trazendo na mão a maçã amassada na qual pisara. Afinal, era só o que faltava, não? Escorregar e cair, e provavelmente fraturar o osso da bacia, pelo tamanho da dor e da incapacidade de andar.

Ora, por que com ela? Aliás, por que sempre com ela?

Ela suspirou e deixou-se cair no sofá, ligando a tv e depressivamente passando por todos os canais.

Certo, não era verdade. Não era sempre com ela. Mas lhe parecia que seus amigos, os mais próximos, os mais antigos, eram os menos dedicados. Eram os que a deixavam esperando. Os que remarcavam em cima da hora, quando já estava tudo pronto. Os que riam de seus fracassos quase com crueldade.

Às vezes se perguntava se não ficava ao lado deles por comodidade. Por sabe-se lá que tipo de apego. O que sabia era que não havia frescor, não havia felicidade, e muitas vezes ela se sentia vazia e sem ninguém em quem contar.

Sozinha, entre aqueles que a acompanharam por muito tempo.

Havia outros amigos, outros grupos, outros lugares, pessoas que ela admirava e com as quais se divertia e… sentia-se culpada por isso! Sentia-se desleal!

Certo, não era sempre com ela. Mas havia algo com ela. E ela precisava de alguém.

p.s.: yes, that might content a little bit of reality.

criado por kadichari    22:03 — Arquivado em: Crônicas

22.5.08

latente

nota: Björk! Inspirou e provavelmente melhorará muito a leitura! Bachelorette, e o último verso é de It’s Oh So Quiet.

A tela já não existia. Que música era aquela? Ondas fortes de semi-consciência bombeadas diretamente em seu sangue. Há muito tempo não fazia aquilo, muito, muito tempo.

I’m a fountain of blood… in the shape of a girl….

Se era depressão ou felicidade intensa, liberdade ou metal de grade, ainda líquido e quente, o que corria por suas veias, ela não sabia. Mas estava lá.

Game we’re playing is life… Love’s a two way dream…

E quente eram também as lágrimas involuntárias. Por quê? Talvez a mera intensidade. Talvez a falta dela, em toda a sua vida.

I’m a whisper in water, a secret for you to hear… You’re the one who grows distant when I beckon you near…

O que tinha feito? Como tinha amado? A intensidade não estava presente nela, e machucava ao mostrar-se tão nua. A intensa vergonha de não ter vivido.

I’m a tree that grows hearts, one for each that you take… You’re the intruders hands, I’m the branch that you break…

- Sshh… _ as mãos em seus olhos, a explosão em seu coração - sim, decidiu-se, seu sangue era puro metal, quente e líquido. Queimando intensamente a parede interna de suas veias, levando calor latente a todo seu corpo, fazendo-a derreter-se…

So what’s the use of falling in love?

Então sentiu-se bem.

criado por kadichari    17:30 — Arquivado em: Crônicas

21.5.08

Passado…

Ele tocou a campainha por alguns minutos antes que alguém atendesse. Temia que ela tivesse saído, mas não, estava lá. Abriu a porta, e parecia no mínimo depressiva.

Usava óculos escuros enormes, mas ele sabia que havia olheiras por trás deles. Ele a conhecia bem demais.

Ela olhou para ele por alguns segundos antes de tentar fechar a porta, mas ele segurou-a.

- Me escuta _ murmurou. Ela suspirou e parou, olhando para ele _ Eu não esqueci, Amy. E nem você esqueceu, eu tenho certeza. Três anos, não é?

- Essa é uma data meramente simbólica _ murmurou Amy, e Rupert sorriu.

- E você não esqueceu mesmo! _ ele ergueu a mão esquerda para ela, mostrando um anel prateado _ Nunca tive coragem de tirá-lo.

Amy sorriu, e mexeu na própria mão esquerda. Também não tinha tirado. 

Tudo bem _ sussurrou, e desbloqueou a porta, deixando-o entrar.

- Amy… eu não vim aqui só por causa disso. Eu vim aqui pra te pedir desculpas. Eu sei o quanto eu te machuquei, e você não sabe o quanto eu estou me odiando por só ter percebido isso agora. Eu– Eu não queria ter batido no Josh.

Ela olhou diretamente nos olhos dele, séria.

- Dá pra ver nos seus olhos que você não se arrependeu de ter batido nele _ disse Amy. Rupert abriu a boca para falar, mas ela não deixou _ Mas pra você ter vindo aqui pra me dizer que se arrependeu… Acho que você percebeu que estava errado, não é?

Rupert olhou para ela, incapaz de falar nada.

- Eu não estou te condenando por bater no Josh, ele realmente merecia. Mas você sabe que não era isso o que eu queria que você aprendesse, não é?

Rupert olhou rapidamente para baixo, depois olhou para ela novamente. 

- Eu fui um egoísta. Eu fui um idiota, um cavalo, eu não estava vendo as coisas. Eu estava cego, Amy, eu não sei se por amor ou por… sei lá, ciúmes. Não, não eram ciúmes, era uma espécie de vaidade. Eu não sei até que ponto eu ficava com você porque eu gostava de você e desde que ponto eu passava a ter você como um objeto de coleção. Raríssimo _ ele sorriu ao acrescentar o adjetivo. Amy pegou suas mãos e ficou nas pontas dos pés para beijá-lo.

- Tudo bem, Rupert _ ela murmurou, sem afastar o rosto do rosto dele, tirando os óculos _ Você não precisa falar. Eu não estou exigindo nada de você.

Ele pegou no queixo dela, suavemente.

- Eu preciso falar. Eu preciso tentar amenizar todas as dores que eu te fiz sentir. Eu preciso disso _ Amy olhou para ele, um brilho quase eufórico invadindo seus olhos e seu sorriso.

- Bom que você esteja voltando pra mim… _ ela sussurrou, abraçando-o forte.

- Eu sempre estive com você, Amy… Mesmo de longe, mesmo morrendo de ciúmes, mesmo zangado com você, eu nunca deixei de ser seu. Só seu.

- Como é bom ouvir isso _ Amy sussurrou, apertando mais o abraço, quase se pendurando no pescoço dele _ Depois de tudo que aconteceu hoje, eu só… eu só conseguia pensar em quando eu ia voltar a ouvir algo assim de você.

Rupert separou um pouco o abraço, olhando nos olhos dela.
- Nós estamos sozinhos aqui? _ perguntou, a expressão estranha.
Amy suspirou.

- Completamente sozinhos _ respondeu.

criado por kadichari    18:40 — Arquivado em: Excertos

19.5.08

Pôr do sol…

Ele a observou por algum tempo antes de se aproximar. Sentada à mesinha de pernas bambas abarrotada de livros, uma mecha insistente dos cabelos cacheados lhe caindo sobre os olhos castanhos, enquanto eles se mexiam ativamente sobre a página branca. O sol, não mais a pino, mas ainda forte, iluminava a cena de uma forma estranha, surreal, como se ela estivesse flutuando sobre o nada, a varanda cheia de plantas um mero cenário para sua leveza.

Ela ergueu a cabeça e ele deu os dois passos que o separavam da cadeira ao lado dela. Ali, de perto, a leveza sumia, súbito, como sempre. Ela vinha se tornando cada vez mais séria, cada vez mais compenetrada, estudando e estudando.

Ele se lembrava da primeira vez que ela fizera aquilo. Depois de um dia cheio de faculdade, sentou-se no sofá, olhando para ele, os pés mexendo-se nervosamente. Ergueu a cabeça e ela hesitou.

- Eu consegui um estágio na área de pesquisas _ disse, meramente. Ele sorriu, feliz.

- Mas isso é ótimo! _ disse, e ela acenou com a cabeça.

- É. Mas eu preciso de alguns livros.

Inicialmente, ele não tinha entendido seu nervosismo. Mas acabara por descobrir que seus "alguns livros" eram "alguns" cinco por semana, e ela se debruçava sobre eles durante todo o seu tempo livre, consultando um antes de partir para outro enquanto lia certo capítulo de outro.

Não sabia direito o que ela tanto estudava, mas sabia que estava surtindo algum efeito: lá estava ela, a frente de um grupo de pesquisa revolucionário que ganhava cada vez mais espaço e pesquisadores, cada vez mais livros.

Ela nada disse, apenas virou-se para seu livro atual e tornou a ler, a mecha de cabelo ainda pendendo por sobre a página.

- Você está ficando envergada _ ele disse. Ela endireitou a coluna, ainda envolta em suas páginas _ Por quanto tempo acha que essa mesa aguentará?

Ela virou-se para ele.

- Qual é o problema? _ perguntou, meio rude, meio preocupada. Ele deu de ombros.

- Mamãe está vindo pra cá. Ela está preocupada com todo esse trabalho que você está tendo.

Ela suspirou pesadamente e tornou a virar-se.

- Todo esse trabalho é o meu trabalho, e desde o início ela sabe disso. Mas você tem razão, talvez devêssemos trocar essa mesa de bambu.

- Não vou trocar minha mesa, Lu _ ele disse, e sentiu sua voz áspera com surpresa; ela também surpreendeu-se, e tornou a olhar para ele.

- Desculpe, então. Posso comprar outra e colocar no meu quarto. Embora eu prefira a varanda, a casa é sua, você é quem sabe _ o tom de voz dela era meio machucado, a raiva embutida na incompreensão que ele sabia ser o sentimento da irmã.

- Não foi isso que eu quis dizer. Você sabe que não foi.

Ela acenou com a cabeça, fingindo concentrar-se no livro. Ele suspirou.

- Olha aqui, Luana _ disse, suavemente _ Olha pra mim _ viu-a hesitar e lentamente olhá-lo de soslaio, pondo aquela madeixa para trás da orelha _ A casa é sua. Você mora aqui, você me ajuda a pagar as contas, você faz as compras, você senta na frente da tv e ri daquelas tosqueiras comigo. A casa também é sua. O que me incomoda não é você estar aqui, ou querer trocar a minha mesa de bambu preferida. O que me incomoda é ver você se transformando no papai sem nem perceber. O que me incomoda é saber que tudo o que você detesta está nesses livros e mesmo assim você continuar se afundando neles.

- Não estou me afundando. Estou me elevando. Conhecimento nunca é demais.

- Isso não é conhecimento, é obsessão. E eu sei que é. Escuta, estudar é importante, é sim. Eu fiz faculdade, me formei, e estou mestrando. Olha só, comprei uma casa na praia e estou aqui relaxando, trabalhando daqui, do meu computador, vendo o sol se pôr. E você… sabe há quanto tempo você não me acompanha num pôr-do-sol?

- Pedro- -

- Não, Luana, você não sabe. Se isso fosse o que você quer, mas não é! Eu te vi chegar e me contar do novo cargo sem um mínimo de entusiasmo, de empolgação! Eu vi você se enfurnar num escritório lá, ou nos livros aqui, e não entendo o ponto de tudo isso. Cadê a praieira que veio morar comigo? Cadê a namoradeira que me fazia morrer de ciúmes com um namorado diferente a cada semana? Cadê, minha irmã?

Ela permaneceu calada e ele suspirou.

- Olha… não estou dizendo pra você não fazer isso. Se for o que você quer, nada posso fazer. Mas vai devagar, porque eu não vou aguentar outro Dr. Gonçalves aqui em casa, tá?

Levantando-se, ele entrou na casa, deixando-a incapaz de concentrar-se na varanda. Deitou-se no sofá e ligou a tv, prestes a dormir. Não, o pôr-do-sol, lembrou-se, e ao olhar no relógio já eram quase sete. Praguejando, levantou-se e dirigiu-se à porta de vidro que levava à pequena varandinha à beira da praia. Ao sair, a decepção: apenas uma linha rósea fina ainda iluminava o céu escuro, ao longe, encontrando-se com o mar azul-marinho. Então ouviu a voz dela.

- Desculpe, não quis te acordar. Você perdeu hoje, mas… todos os dias temos um novo, certo?

criado por kadichari    21:35 — Arquivado em: Crônicas

18.5.08

sorrisos…

Senti o peso nas pálpebras enquanto movia meus olhos pelas últimas linhas daquela página com satisfação. Me forçaria a terminar o livro, o que deveria levar em torno de cinco minutos, depois me levantaria, preguiçosa, para preparar as coisas antes de dormir.

Há quase duas semanas não sentia aquela espécie de sono limpo, sem dor de cabeça, sem tristeza, febre ou luto, coisas que haviam se avolumado por um bom tempo, mantendo-me numa agonia constante.

Ora, pois tanto faz se durmo bem ou não, me obrigava a pensar. Mas a verdade era que eu realmente precisava de uma noite de sono. Tudo aquilo estava me mantendo aérea, afastada, chateada, e o mundo estava cinza; não havia a vontade de me levantar, de viver.

Deitar-me enrolada no cobertor amarelo, aquele frio delicioso pressionando meus olhos e mantendo-os fechados, o sono vindo e instalando-se, sem sonhos, sem sentimentos. A boa inércia.

Ele percebeu meu humor diferente na mesa do café.

- Dormiu bem? _ perguntou, com seus olhos azuis espertos sob as sobrancelhas ruivas. Sorri.

- Sim, muito. Finalmente me livrei da febre e da dor de cabeça, acho.

Vi-o sorrir daquela maneira enigmática que tanto me incomodava. Sabia que ele sempre me observava da porta por alguns minutos antes de entrar no quarto e ajeitar meu cobertor; estivera plenamente consciente disso quando apenas fingia dormir nessa semana, para não preocupá-lo; e imaginava se ele sabia. Imaginava se ele tinha me olhado com ternura e me beijado a testa antes de seguir para o seu próprio quarto, percebendo que dessa vez eu dormia de verdade.

- Isso é bom _ ele sussurrou, tornando a observar seu prato de ovos com um interesse peculiarmente demasiado.

- O que foi? _ perguntei, e ele me encarou com seriedade.

- O que houve? Durante essas semanas, quero dizer. Você sempre demorava a dormir, e parecia um meio-zumbi todo o tempo. Há muito não te via sorrir no café.

- Foi só a gripe _ disse, e ele suspirou.

- Não, não foi. Sei que recebeu uma carta de seu pai essa semana. Gostaria que você me dissesse o que tem te incomodado.

- Não incomoda mais, Júlio. Não precisa se preocupar.

Ele hesitou por algum tempo, considerando se insistir nas perguntas estragaria mais ainda o bom humor da manhã. Ele devia estar esperando por esse bom humor para tocar no assunto, e estragá-lo não lhe traria nada produtivo. Calou-se, portanto.

- Júlio? _ chamei, e ele me olhou, surpreso com a minha voz trêmula.

- Você não… o que houve? _ ele perguntou. Suspirei.

- Ele descobriu o que o tem mantido frequentemente doente. É um tumor, no pulmão. Não tem mais chances. Ainda estava me acostumando à idéia.

Ele manteve-se calado por algum tempo. Abaixou e tornou a levantar os olhos por duas vezes, depois suspirou.

- Eu imaginei que fosse algo relacionado a isso. Realmente sinto muito. Você vai visitá-lo antes de ir embora?

- Não sei. Letícia disse que ele está muito fragilizado. Não sei se seria bom vê-lo _ ele apenas acenou com a cabeça e mudou de assunto.

- Que livro você estava lendo ontem?

- O que você me emprestou. Como é mesmo o nome?

- A Menina Que Roubava Livros. Bom livro. Gostou?

- Sim, muito. Você ainda o quer de volta? _ perguntei, naquela voz manhosa que ele bem conhecia. Ele riu e abanou a cabeça negativamente.

- Pode ficar, contanto que me prometa que sempre que relê-lo lá em Nova Iorque irá lembrar-se de mim.

Sorri e pensei em nós dois. Tudo o que Júlio representava para mim. Sempre me protegendo, me divertindo, me ajudando. Conversava comigo com aquele olhar de ternura, aquele olhar amoroso de quem admira, e me fazia sentir tão especial. Júlio era mais que um irmão ou um pai ou um namorado. Ele era um amigo especial, um amigo que reunia as três funções e beijava minha testa quando eu já estava dormindo, estendendo o cobertor para melhor me cobrir.

- Júlio? _ tornei a chamar, e ele olhou para mim com um sorriso estranho. O tom da minha voz continuava pidão, e ele parecia divertir-se em conceder meus desejos.

- Sim?

- Você iria a Sampa comigo? Eu gostaria que você conhecesse meu pai.

Ele apenas sorriu, o mesmo sorriso que me aceitara como inquilina do seu quarto de hóspedes, o mesmo sorriso que pospusera nosso primeiro beijo, o mesmo sorriso que ele daria quando eu lhe dissesse sim, dali a alguns dias.

Não devia me apoquentar.

KADICHARI M.

criado por kadichari    20:19 — Arquivado em: Crônicas

16.5.08

Passarinhos…

Dois pássaros. Um beija-flor. Um bem-te-vi. Um voava, o outro cantava. Ou piava? Em que se configura o canto do bem-te-vi? Eles tinham as barrigas amarelo-escuras. Eu lembro. Os dorsos eram ambos marrom-escuros, mas a cor se estendia no bem-te-vi, quando a cabeça do beija-flor era esverdeada. As asas do último eu não podia ver, mas assumia que também eram verde-claras. Distrairam-me toda a manhã. Enquanto você não vinha…

KADICHARI M.

criado por kadichari    17:31 — Arquivado em: Crônicas

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