Ele a observou por algum tempo antes de se aproximar. Sentada à mesinha de pernas bambas abarrotada de livros, uma mecha insistente dos cabelos cacheados lhe caindo sobre os olhos castanhos, enquanto eles se mexiam ativamente sobre a página branca. O sol, não mais a pino, mas ainda forte, iluminava a cena de uma forma estranha, surreal, como se ela estivesse flutuando sobre o nada, a varanda cheia de plantas um mero cenário para sua leveza.
Ela ergueu a cabeça e ele deu os dois passos que o separavam da cadeira ao lado dela. Ali, de perto, a leveza sumia, súbito, como sempre. Ela vinha se tornando cada vez mais séria, cada vez mais compenetrada, estudando e estudando.
Ele se lembrava da primeira vez que ela fizera aquilo. Depois de um dia cheio de faculdade, sentou-se no sofá, olhando para ele, os pés mexendo-se nervosamente. Ergueu a cabeça e ela hesitou.
- Eu consegui um estágio na área de pesquisas _ disse, meramente. Ele sorriu, feliz.
- Mas isso é ótimo! _ disse, e ela acenou com a cabeça.
- É. Mas eu preciso de alguns livros.
Inicialmente, ele não tinha entendido seu nervosismo. Mas acabara por descobrir que seus "alguns livros" eram "alguns" cinco por semana, e ela se debruçava sobre eles durante todo o seu tempo livre, consultando um antes de partir para outro enquanto lia certo capítulo de outro.
Não sabia direito o que ela tanto estudava, mas sabia que estava surtindo algum efeito: lá estava ela, a frente de um grupo de pesquisa revolucionário que ganhava cada vez mais espaço e pesquisadores, cada vez mais livros.
Ela nada disse, apenas virou-se para seu livro atual e tornou a ler, a mecha de cabelo ainda pendendo por sobre a página.
- Você está ficando envergada _ ele disse. Ela endireitou a coluna, ainda envolta em suas páginas _ Por quanto tempo acha que essa mesa aguentará?
Ela virou-se para ele.
- Qual é o problema? _ perguntou, meio rude, meio preocupada. Ele deu de ombros.
- Mamãe está vindo pra cá. Ela está preocupada com todo esse trabalho que você está tendo.
Ela suspirou pesadamente e tornou a virar-se.
- Todo esse trabalho é o meu trabalho, e desde o início ela sabe disso. Mas você tem razão, talvez devêssemos trocar essa mesa de bambu.
- Não vou trocar minha mesa, Lu _ ele disse, e sentiu sua voz áspera com surpresa; ela também surpreendeu-se, e tornou a olhar para ele.
- Desculpe, então. Posso comprar outra e colocar no meu quarto. Embora eu prefira a varanda, a casa é sua, você é quem sabe _ o tom de voz dela era meio machucado, a raiva embutida na incompreensão que ele sabia ser o sentimento da irmã.
- Não foi isso que eu quis dizer. Você sabe que não foi.
Ela acenou com a cabeça, fingindo concentrar-se no livro. Ele suspirou.
- Olha aqui, Luana _ disse, suavemente _ Olha pra mim _ viu-a hesitar e lentamente olhá-lo de soslaio, pondo aquela madeixa para trás da orelha _ A casa é sua. Você mora aqui, você me ajuda a pagar as contas, você faz as compras, você senta na frente da tv e ri daquelas tosqueiras comigo. A casa também é sua. O que me incomoda não é você estar aqui, ou querer trocar a minha mesa de bambu preferida. O que me incomoda é ver você se transformando no papai sem nem perceber. O que me incomoda é saber que tudo o que você detesta está nesses livros e mesmo assim você continuar se afundando neles.
- Não estou me afundando. Estou me elevando. Conhecimento nunca é demais.
- Isso não é conhecimento, é obsessão. E eu sei que é. Escuta, estudar é importante, é sim. Eu fiz faculdade, me formei, e estou mestrando. Olha só, comprei uma casa na praia e estou aqui relaxando, trabalhando daqui, do meu computador, vendo o sol se pôr. E você… sabe há quanto tempo você não me acompanha num pôr-do-sol?
- Pedro- -
- Não, Luana, você não sabe. Se isso fosse o que você quer, mas não é! Eu te vi chegar e me contar do novo cargo sem um mínimo de entusiasmo, de empolgação! Eu vi você se enfurnar num escritório lá, ou nos livros aqui, e não entendo o ponto de tudo isso. Cadê a praieira que veio morar comigo? Cadê a namoradeira que me fazia morrer de ciúmes com um namorado diferente a cada semana? Cadê, minha irmã?
Ela permaneceu calada e ele suspirou.
- Olha… não estou dizendo pra você não fazer isso. Se for o que você quer, nada posso fazer. Mas vai devagar, porque eu não vou aguentar outro Dr. Gonçalves aqui em casa, tá?
Levantando-se, ele entrou na casa, deixando-a incapaz de concentrar-se na varanda. Deitou-se no sofá e ligou a tv, prestes a dormir. Não, o pôr-do-sol, lembrou-se, e ao olhar no relógio já eram quase sete. Praguejando, levantou-se e dirigiu-se à porta de vidro que levava à pequena varandinha à beira da praia. Ao sair, a decepção: apenas uma linha rósea fina ainda iluminava o céu escuro, ao longe, encontrando-se com o mar azul-marinho. Então ouviu a voz dela.
- Desculpe, não quis te acordar. Você perdeu hoje, mas… todos os dias temos um novo, certo?
