5.4.08

Jibóias e elefantes

Estranho como a inspiração pode vir dos lugares mais estranhos. Obviamente, me refiro ao orkut, que me faz vir aqui e digitar mesmo com o dedo roxo com o tamanho dobrado (ser goleira é osso, viu?). Estava lá, olhando um orkut qualquer (nem tão qualquer, mas não importa) e entre as comunidades de rosto da pessoa, encontrei a comunidade da qual também faço parte, a do Pequeno Príncipe. Resolvi dar uma visitada, e encontrei a seguinte questão:

"Tenho um amigo que disse "não gostei do final, porque ele morre". Eu expliquei que um dia ele vai deixar de ver chapéus e vai saber que o Petit num morreu e sim, voltou pra sua rosa. Mas hoje… Eu estava lembrando da pessoa que me deu o livro… Uma amiga que voltou pro planetinha dela.. Fico pensando se essa minha mania de ver jibóias não é só uma fase. Tenho que crescer um dia, seja lá quando for. E hoje.. Agora há uns minutinhos.. Percebi que o pra sempre sempre acaba. E que um dia o Principezinho tem que morrer. Você já se sentiu triste a ponto de pensar que o pequenino estava realmente morto?"

Nunca parei pra pensar se vejo chapéus ou cobras. Na verdade, sempre me preocupei muito mais com o elefante. Por que devemos considerar otimista a visão de quem não vê só o chapéu, se isso significa ver um elefante sendo morto? Cobras abertas e fechadas continuam a ser cobras. E se parecem um chapéu, o pobre elefante ainda está lá dentro.

Deve haver toda uma simbologia nisso, é claro. Mas eu não quero pensar que todo o esforço do petit foi em vão! Ele trouxe luz ao mundo, ele conseguiu arrancar inocência de um coração duro. Ele viu, sim, a cobra e o elefante. E morreu? Pela cobra. Maldita serpente. Pobre petit.

Mas ele virou estrela. Voltou pra sua rosa, sim, voltou. Pra sua terra sem baobás. Eu espero que sim.

Não é otimismo ver a cobra e o elefante, mas é cegueira ver o chapéu. E se você é cego, não vê os baobás. E o petit os via. Os via e os combatia. Sejamos como o petit.

Sem muito nexo, termino aqui. E deixemos petit falar (porque sim, ele voltou pra sua rosa! Mas será que pensar isso não é ver chapéus?).

"- Bom dia, disse a raposa.
- Bom dia, respondeu polidamente o principezinho que se voltou mas não viu nada.
- Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira…
- Quem és tu? perguntou o principezinho. Tu és bem bonita.
- Sou uma raposa, disse a raposa.
- Vem brincar comigo, propôs o princípe, estou tão triste…
- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda.
- Ah! Desculpa, disse o principezinho.
Após uma reflexão, acrescentou:
- O que quer dizer cativar ?
- Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras?
- Procuro amigos, disse. Que quer dizer cativar?
- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa criar laços…
- Criar laços?
- Exatamente, disse a raposa. Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens necessidade de mim. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás pra mim o único no mundo. E eu serei para ti a única no mundo…
Mas a raposa voltou a sua idéia:
- Minha vida é monótona. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei o barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora como música. E depois, olha! Vês, lá longe, o campo de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelo dourados. E então serás maravilhoso quando me tiverdes cativado. O trigo que é dourado fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo…
A raposa então calou-se e considerou muito tempo o príncipe:
- Por favor, cativa-me! disse ela.
- Bem quisera, disse o principe, mas eu não tenho tempo. Tenho amigos a descobrir e mundos a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não tem tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres uma amiga, cativa-me! Os homens esqueceram a verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer.

Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas"

Te cativei?

KADICHARI M.

criado por kadichari    12:33 — Arquivado em: Críticas, Excertos, Reflexões

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