25.2.08

Desapego

Vou desapegar.

Porque as pessoas são vis e os objetos são vãos e todo lugar que eu olho me cheira falsidade.

Falsa admiração, o despeito descarado que alguns vem desferindo nas direções erradas, ou certas, disso não posso me assegurar, aquele sentimento amargo vindo pela garganta, a vontade de se encolher. Por que não me sinto mais à vontade?

Conheço esse caminho. E não vou trilhá-lo novamente.

Num momento em que tudo na minha vida é insegurança, só vejo verdade em algumas míseras pessoas, que, mesmo assim, foram empurradas para longe pelo asco que senti por seus sentimentos.

Talvez a falsidade esteja em mim?

Talvez o meu olhar seja o que especula e julga, e eu esteja apenas cumprindo meu papel de torre nesse jogo estúpido: ali, em pé, forte, observando, servindo de apoio, ouvindo confissoes e acolhendo a todos. Ao mesmo tempo, e não consigo achar uma analogia para isso, teço uma teia em torno deles, uma teia que muda minha imagem, para o bem ou para o mal, de acordo com o que eu quero.

Talvez… talvez… eu não seja de confiança.

Talvez tudo o que já jogaram pra cima de mim, toda a falsidade e todo o meu asco se fundiram, me marcaram, e hoje, não posso verdadeiramente sentir.

Ou sinto; o misto de ódio e sede de vingança que me aquece o peito toda vez que abro a boca do meu coração. As palavras saem distorcidas: verdadeiras, porém num tom que nunca é o que eu realmente sinto.

Talvez a falsidade esteja em mim.

Talvez eu tenha que me livrar desses sentimentos para voltar a escrever.

Vou desapegar.

Enquanto ainda há tempo de olhar para trás e sentir um mínimo de afeto pelos tempos passados de ingenuidade.

KADICHARI M.

criado por kadichari    19:49 — Arquivado em: Crônicas, Reflexões

23.2.08

Escrita

Escrever é mais que uma paixão. É uma necessidade. Porque se eu não escrevo, eu não sei como eu me sinto. O que eu escrevo reflete intensamente a minha vontade de abraçar ou apunhalar o mundo, de amar ou de ignorar meus amigos e minhas paixões.

Escrever é o único amor estável que eu tenho, o único namorado que nunca me deixou irritada, a única amiga que nunca fez nada que me fizesse contar até dez.

Escrever é correr por becos escuros, é sentir o sangue escorrendo pelo seu pescoço, é beijar a perfeição; é sentir desejo, amor, ódio, e não sair prejudicado. É suar e tremer, é sentir prazer, é voar… e depois, sentir-se completamente realizado, sentado, cuspindo tinta na folha que, quando em branco, era assustadoramente intimidante.

Escrever é deixar um pedaço de você na Terra. É reconhecer a si próprio, é afirmar sua identidade e sentir-se vulnerável quando ela é exposta a outras pessoas. A opinião alheia, a humilhação ainda maior que aquela dos tempos do colégio, ainda maior que a humilhação de não ser correspondido, de ser pego em flagrante, a humilhação pior que qualquer outra…

O medo de ter sua identidade rasgada, criticada, descoberta, repudiada… O medo de ser intimidado por sua intimidade… O medo de que as pessoas te esfreguem nas fuças o quanto te conhecem por seu escrito, o medo… O medo.

De repente aquela folha em branco parece um paraíso… E eu me sinto mal pela Rachel, pelo Robert, que merecem um final feliz. E me sinto mal pela minha cultura americanizada que não me permitiu chamá-los de Raquel e Roberto, pela minha cultura americanizada que me rende críticas e que me faz sentir tão… pequena!

Eu sinto muito, muito mesmo… Estou me acovardando.

O espírito de aventura que me levava por aqueles becos escuros está me abandonando e eu não sei o que fazer!

Será que não gosto mais de escrever?

KADICHARI M.

criado por kadichari    16:34 — Arquivado em: Críticas, Crônicas, Reflexões

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