7.6.07
apocalipse
Saber que vai haver punição não garante que deixarei de agir errado. Porque a ação errada às vezes tem um gosto tão bom… Não sou uma pessoa virtuosa. Eu sei que não. Às vezes a vingança, ou a própria provocação, em si, saem tão fáceis da minha boca, estalam tão doces em minha consciência, que não encontro um motivo para parar.
Então, quando percebo, já sofri um golpe tão grande com a minha não-gentileza que estou no chão, junto com a pessoa que ofendi, ou machuquei, ou até que eu deixei feliz, envolta numa rede de mentiras bem costurada.
E o pior, o remorso, com seu gosto amargo, passa como uma nuvem de fumaça espiralada, uma vaga consciência, que não dura mais que as palavras cruéis que me derrubaram.
O arrependimento é temporário, e é quando mergulho em conversas esdrúxulas com um certo rapaz que costuma beijar minha irmã, e mergulhamos em divagações sobre o arrebatamento, os planos de dominação mundial dos chineses, o ressurgimento do império romano, a tomada de poder por um líder nato, os três anos e meio de prosperidade seguidos pelo caos, o apocalipse, é quando mergulhamos em tudo isso, de certa forma mítico, que eu paro para pensar nos meus arrependimentos.
Porque por mais que eu deixe meu ceticismo se sobressair, por mais que eu me anuncie como a pessoa que renuncia a todo e qualquer tipo de religião, uma parte de mim é medo e dúvida. Porque por mais que eu queira acreditar com toda as minhas forças na não-existência de deus; por mais que eu reze todas as noites com afinco para que tudo isso seja besteira, os fatos me assustam.
Todos os fatos enumerados pela Bíblia que se chocam com a nossa realidade imprimem uma certa dúvida em céticos como eu, atrevo-me a dizer, mas o que mais me impressiona é a sede de vingança desse deus.
E por mais que todos os pensamentos lógicos apontem deus como uma invenção humana, esse sentimento plebeu do qual ele está cheio nos aproxima (a Ele e nós, mortais) de uma forma tão absurda e bizarra, tão estranha, que a dúvida imprimida se enche de cor.
Porque eu queimo meus miolos para encontrar uma razão de ser nas simbologias do apocalipse diferentes do apocalipse em si.
E quando não encontro, paro pra pensar se minha vida foi bem vivida e vivida para o bem. Paro para pensar nos meus arrependimentos de meio minuto.
E então, peso meus medos e dúvidas, e chego à conclusão de que não é o suficiente para conseguir o perdão d’Ele. E quando vejo que meus arrependimentos não são mais profundos que uma poça d’água, eu me encho de medo.
Mas o medo da punição que passo então a considerar como certa, saber eu vai haver a tal punição… não me impede de continuar agindo errado.
KADICHARI M.
Lição da semana: reflita, arrependa-se de verdade e compre seu lugar no camarote para assistir o espetáculo da perdição humana. Deus está com você, meu PC está comigo, e eu espero morrer antes de ver meus medos confirmados. Talvez até dê pra barganhar um perdão antes do tal arrebatamento, né? Ainda temos um século pela frente…
criado por kadichari
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