Ela fechava os olhos e pedia que fosse realmente tão bom, que nada mudasse, que a maré continuasse a seu favor, que suas competências não se provassem na realidade incompetentes, que ela conseguisse passar por aquilo, que ela tivesse apoio e compreensão, que ela tivesse maneiras de conseguir o que quisesse, que ela continuasse a gostar do que fazia, que valesse apena até o último segundo, que daqui a cinco anos ela estivesse tão ou mais feliz, que todas as coisas ruins se resolvessem, que a distância não doesse tanto, que ele resolvesse vir mais pra perto dela, que ela pudesse manter todos em sua vida, que ninguém esquecesse dela e que ela não desapontasse ninguém, que ninguém a machucasse mais e que tudo fosse como devia ser, como lhe disseram que seria, que não houvesse tantos percalços entre o happily ever after e o fim, e que o fim não fosse adiantado, que ela tivesse a quem amar e quem a amasse, que um dia não estivesse tão sozinha, e que não se sentisse tão sozinha mesmo quando não o estivesse, que pudesse um dia ter sentimentos tão fortes e leves quanto um dia tivera, que fosse só uma fase, que a Pixar estivesse certa ao dizer que "It gets better"… Que ela tivesse forças pra desconsiderar, superar, apagar esse medo…
E, claro (pois não havia nada para ouvir seus pedidos), ela abria os olhos tão perdida e assustada quanto antes. Às vezes mais. Quase sempre mais.
E ela sentia raiva por não ter sido preparada pra esse sentimento enorme e inominável e amargo e difícil de engolir. Por terem passado tanto tempo tentando mantê-la numa semifelicidade castradora, e não se preocupado em ensinar como fazer tudo dar certo quando fora, livre, como se livrar disso quando essa escuridão a tomasse; sequer se preocuparam em avisar que poderia haver tal escuridão.
Ela era uma criança, só uma criança com ilusões de grandeza, que se achava capaz de tudo, melhor que muitos, e no fim continuava apenas ligeiramente mais bem informada que algumas crianças mais velhas mas na prática seria massacrada por elas. Uma criança que não estava preparada para pular dentro do mudo adulto de cabeça como pulou, que ainda estava num mergulho sem fim e não podia mais respirar.
E não sentia poder falar disso com alguém (até porque não conseguiria articular nada disso) e sentia que seu fardo era tão maior que o dos outros e que não era justo, não era justo.
Queria paz, só paz, PAZ.
Paz…
KADICHARI M.